A história do rádio
Introdução
Nesta seção você conhecerá melhor a história e os principais fatos que marcaram o início de um dos mais importantes veículos de comunicação em massa: o Rádio.
O Rádio: Definição e Características
O rádio é um veículo de comunicação, baseado na difusão de informações sonoras, por meio de ondas eletromagnéticas, em diversas freqüências. Ele pode ser caracterizado como um meio essencialmente auditivo, formado pela combinação do binômio: voz (locução) e música.
O rádio entre os meios de comunicação em massa, pode ser considerado o mais popular e o de maior alcance do público, não só no Brasil mas no mundo, isso pela capacidade que o homem tem em ouvir a mensagem sonora e falada simultaneamente e não ter de interromper as suas atividades e se dedicar exclusivamente à audição. Segundo dados do Ministério das Comunicações, o Brasil possui aproximadamente 3.000 emissoras de rádio, sendo que distribuídas aproximadamente em 50% para AM e FM.
Como todo meio de massa, a comunicação pode ser caracterizada como pública, transitória e rápida. Ela é pública, porque, na medida em que as mensagens não são endereçadas a ninguém em particular, seu conteúdo esta aberto ao critério público. Rápida porque as mensagens são endereçadas para atingir grande audiência em tempo relativamente curto, ou mesmo simultaneamente. Transitória, pois a intenção é de que sejam consumidas imediatamente, não se destinando a registros permanentes, naturalmente há exceções, como filmotecas, gravações etc.
O início
Tudo começou com Michael Faraday, grande sábio inglês que descobriu em 1831 a indução magnética, assim como a grande contribuição dada por James C. Maxwell que descobriu matematicamente a existência das ondas eletromagnéticas diferente somente em tamanho, das ondas de luz, mas com a mesma velocidade (300.000 Km/s). Outro personagem que marcou a história das comunicações foi Thomas A. Edison quando em 1880 descobriu que colocando em uma ampulheta de cristal um filamento e uma placa de metal separada entre si e ligando-se o filamento ao negativo e uma bateria e a placa ao positivo, constatava-se a passagem de uma corrente elétrica da placa para o filamento e nunca em sentido contrário. Grande contribuição também foi dada pelo professor alemão Henrich Rudolph Hertz que comprovou na prática em 1890 a existência das ondas eletromagnéticas, chamadas hoje de “Ondas de Rádio”. Suas experiências basearam-se na teoria de Maxwell, Hertz descobriu que ao fazer saltar uma chispa em seu aparelho oscilador, saltavam também chispas entre as pontas de um arco de metal colocado a certa distância denominado resonador. Hertz demonstrou com essa experiência que as ondas eletromagnéticas tem a mesma velocidade que as ondas de luz. Em sua homenagem, as ondas de rádio passam a ser chamadas de “Ondas Hertzianas”, usando-se também o “Hertz” como unidade de freqüência.
As primeiras transmissões radiofônicas
Mais tarde em 1893 o padre, cientista e engenheiro gaúcho Roberto Landell de Moura testa a primeira transmissão de fala por ondas eletromagnéticas, sem fio. Graças a ele, a Marinha Brasileira realizou, em 1 de março de 1905, diversos testes de mensagens telegráficas no encouraçado Aquidaban. Todavia, o primeiro mundo reconhece o cientista Guglielmo Marconi como o “descobridor do rádio”. Marconi, natural de Bolonha, Itália, realizou em 1895 testes de transmissão de sinais sem fio pela distância de 400 metros e depois pela distância de 2 quilômetros. Ele também descobriu o princípio do funcionamento da antena. Em 1896 Marconi adquiriu a patente da invenção do rádio, enquanto Landell só conseguiria obter para si a patente no ano de 1900. Essa polêmica da invenção do rádio se compara à da invenção do avião, no início do século XX, em que o primeiro mundo credita aos irmãos Wright, dos EUA, a invenção do veículo aéreo, embora tenha sido o mineiro Alberto Santos Dumont seu pioneiro (os Wright não registraram imagens e suas experiências de vôo, enquanto Dumont realizou testes com seu 14-Bis diante de multidões em Paris, França, em 1906).
Cronograma do rádio no Brasil
Em nosso cronograma você ficará por dentro dos principais acontecimentos que movimentaram a história do rádio no Brasil, desde o início, e as novas perspectivas sobre a vinda da tecnologia digital.
1922 – Em caráter experimental foi realizada pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro a primeira transmissão oficial de radiodifusão na praia Vermelha no Rio de Janeiro, com o discurso do presidente da República, Epitácio Pessoa em comemoração ao centenário da Independência do Brasil, para isso, foram importados 80 receptores de rádio especialmente para o evento.
1923 – No dia 20 de abril, é fundada a primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, hoje denominada Rádio MEC, criada para atuar sem fins comerciais.
1924 – É regulamentada a atual faixa de Ondas Médias, compreendidas entre 550 à 1550 KHz.
1931 – São vendidos os primeiros receptores com o nome das estações no dial.
No mesmo ano foi inaugurada as rádios: Record e América de São Paulo.
1933 – Nasce a Sociedade Rádio Educadora de Campinas, que desde 2002 passou-se a denominar Rádio Bandeirantes AM, com isso a programação abre espaço para o jornalismo.
1936 – É fundada a brasileira Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ela se tornaria um marco na história do rádio com seus programas de auditório, suas comédias e rádio novelas. Entre o final dos anos 30 e a primeira metade dos anos 50 a Nacional seria uma das líderes de audiência do rádio brasileiro, exportando sua programação gravada e dias depois transmitidas em outras cidades brasileiras.
1937 – Em 6 de maio é inaugurada em São Paulo a Rádio Bandeirantes, a primeira emissora a divulgar notícias durante toda a programação.
1938 – Surge a Rádio Globo do Rio de Janeiro, que mais tarde passa a ser a rádio AM mais popular do país.
1941 – A Rádio Nacional lança o Repórter Esso, primeiro rádio jornal brasileiro, também entra no ar a primeira novela radiofônica do país: Em busca da felicidade.
1946 – O rádio ganha maior agilidade com o surgimento dos gravadores de fita magnética.
Também os retificadores de selênio começam a substituir as válvulas retificadoras material semicondutor em estado sólido muito menos propício a queimar do que as velhas válvulas a vácuo.
1955 – Primeira transmissão experimental de rádio FM, pela Rádio Imprensa do Rio de Janeiro, extinta no final de dezembro/2000.
1967 – É criado o Ministério das Comunicações no dia 25 de evereiro.
1990 – A rede Bandeirantes de rádio se torna a primeira emissora no Brasil a transmitir via satélite com 70 emissoras FM e 60 em AM, em mais de 80 regiões do país.
1991 – O sistema Globo de rádio inaugura a CBN (Central Brasileira de Notícias), emissora especializada em jornalismo, que a partir de 1996 inicia suas transmissões simultâneas em FM.
1995 – Início da campanha pelo fim da obrigatoriedade da transmissão do programa oficial “A voz do Brasil”.
2005 – Comemorando os 84 anos do rádio no Brasil, inicia-se no país em 26 de setembro as primeiras transmissões de rádio no sistema digital, tecnologia que está apenas “aterrissando” no Brasil.
Rádio (comunicação)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Nota: Se procura outros significados da palavra, veja Rádio.
Este artigo ou se(c)ção cita fontes fiáveis e independentes, mas elas não cobrem todo o texto (desde novembro de 2012).
Por favor, melhore este artigo providenciando mais fontes fiáveis e independentes, inserindo-as em notas de rodapé ou no corpo do texto, nos locais indicados.
Encontre fontes: Google — notícias, livros, acadêmico — Scirus — Bing. Veja como referenciar e citar as fontes.
Comunicação
Tipos[Expandir]
Meios[Expandir]
Profissões[Expandir]
Disciplinas[Expandir]
Conceitos[Expandir]
Elementos[Expandir]
Temas e Questões[Expandir]
Tecnologia[Expandir]
Escolas[Expandir]
Categoria
v • e
Rádio é um recurso tecnológico das telecomunicações utilizado para propiciar comunicação por intermédio da transcepção de informaçõespreviamente codificadas em sinal eletromagnético que se propaga através do espaço.
Uma estação de radiocomunicação é o sistema utilizado para executar contatos à distância entre duas estações, ela é composta basicamente de um transceptor (transmissor-receptor) de radiocomunicação, de uma linha de transmissão e da antena propriamente dita. A este sistema se dá o nome de sistema irradiante.
A radiodifusão é uma emissão comercial, que ocorre apenas por transmissão de sinais, sem sua transcepção. Geralmente não há recursos em AM(apenas o importante Rádio digital que é um ganho para as estações desta denominada modulação), é exclusividade de FM entre tanto são elas, som estéreo e o RDS
Índice
[esconder]
• 1 Estrutura
• 2 História
o 2.1 As primeiras radioemissões
• 3 Tecnologia
o 3.1 Receptor
o 3.2 Transmissor
o 3.3 Transceptor
•
Estrutura
O rádio é um sistema de comunicação através de ondas eletromagnéticas propagadas no espaço, que por serem de comprimento diferente são classificadas em ondas curtas de alta frequência ou ondas longas de baixa frequência, assim, utilizadas para fins diversos como televisão, radio, avião, etc.
Os sistemas de radiocomunicação normais são formados por dois componentes básicos:
• Transmissor – composto por um gerador de oscilações, que converte a corrente elétrica em oscilações de uma determinada frequência de rádio; um transdutor que converte a informação a ser transmitida em impulsos elétricos equivalentes a cada valor e um modulador, que controla as variações na intensidade de oscilação ou na frequência da onda portadora, sendo efetuada em níveis baixo ou alto. Quando a amplitude da onda portadora varia segundo as variações da frequência e da intensidade de um sinal sonoro, denomina-se modulação AM. Já quando a frequência da onda portadora varia dentro de um nível estabelecido a um ritmo igual à frequência de um sinal sonoro, denomina-se modulação FM;
• Receptor – Tem como componentes principais: a antena para captar as ondas eletromagnéticas e convertê-las em oscilações elétricas; amplificadores que aumentam a intensidade dessas oscilações; equipamentos para desmodulação; um alto-falante para converter os impulsos em ondas sonoras e na maior parte dos receptores osciladores para gerar ondas de radiofrequência que possam se misturar com as ondas recebidas.
História
Segundo alguns autores, a tecnologia de transmissão de som por ondas de rádio foi desenvolvida pelo italiano Guglielmo Marconi, no fim do século XIX, mas a Suprema Corte Americana concedeu a Nikola Tesla o mérito da criação do rádio, tendo em vista que Marconi usara 19 patentes de Tesla em seu projeto.
Na mesma época em 1893, no Brasil, o padre Roberto Landell de Moura também buscava resultados semelhantes, em experiências feitas em Porto Alegre, no bairro Medianeira, onde ficava sua paróquia. Ele fez as primeiras transmissões de rádio no mundo, entre a Medianeira e o morro Santa Teresa. [carece de fontes]
As primeiras radioemissões
O início da história do rádio foi marcado pelas transmissões radiofônicas, sendo a transcepção utilizada quase na mesma época. Consideram alguns que a primeira transmissão radiofónica do mundo foi realizada em 1906, nos Estados Unidos por Lee de Forest experimentalmente para testar a válvula tríodo.
No Brasil, inicialmente apenas militares poderiam ter aparelhos de rádio, a lei foi revogada por Francisco de Sá[1], e a primeira transmissão civil foi realizada no dia 6 de abril de 1919, a partir de um estúdio improvisado na Ponte d'Uchoa, no Recife, pela PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco, tendo à frente o radiotelegrafista Antônio Joaquim Pereira. Sobre este fato o Jornal do Recife (já extinto) noticiou no dia 7 de abril de 1919: "Consoante convocação anterior, realizou-se ontem na Escola Superior de Electricidade, a fundação do Rádio Clube, sob os auspícios de uma plêiade de moços que se dedicam ao estudo da electricidade e da telegrafia sem fio. Ninguém desconhece a utilidade e proveito dessa agremiação, a primeira do gênero fundada no País." Idealizada, construída, operada e direcionada para um grupo elitista, a emissora não teve muita repercussão, por não existirem receptores nas residências àquela época. Em 7 de setembro de 1922, no centenário da Independência do Brasil, o presidente Epitácio Pessoa, acompanhado pelos reis da Bélgica, Alberto I e Isabel, abriu a Exposição do Centenário da Independência no Rio de Janeiro. O discurso de abertura de Epitácio Pessoa foi transmitido para receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo, através de uma antena instalada no Corcovado. No mesmo dia, à noite, a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, foi transmitida do Teatro Municipal para alto-falantes instalados na exposição, assombrando a população ali presente. Era o começo da primeira estação de rádio do Brasil: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Fundada por Edgar Roquette-Pinto, a emissora foi doada ao governo em 1936 e existe até hoje, mas com o nome de Rádio MEC. Essa transmissão é tida como a pioneira, no âmbito oficial. Porém a emissão radiofônica pioneira deu-se no Recife, em 1919, através da Rádio Clube de Pernambuco. Em abril de 1923, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro é inaugurada, sob a direção de Edgar Roquette Pinto, e é reconhecida como a primeira rádio do Brasil, no entanto, em fevereiro de 1923, a Rádio Clube de Pernambuco, já operava com um transmissor de 10 watts.
Tecnologia
Rádio com toca-fitas cassette, tipicamente anos 80.
Receptor
A função do receptor de rádio é a decodificação dos sinais eletromagnéticos recebidos do espaço, captados pela antena, transformando-os em ondas sonoras, sinais digitais e/ou analógicos. A televisão e o rádio automotivo, por exemplo, são receptores.
O equipamento é conectado a uma antena receptora, um sistema de sintonia e amplificadores de áudio, vídeo e/ou sinais digitais.
Rádio de 1936, em madeira, AM e Ondas Curtas.
Torre de emissora de rádio.
Transmissor
O radiotransmissor converte sinais sonoros, analógicos ou digitais em ondas eletromagnéticas, enviando-os para o espaço através de uma antenatransmissora, para serem recebidos por um radiorreceptor, por exemplo, emissoras de AM, FM ou de TV Além do LW.
Transceptor
O radio-transceptor, funciona das duas formas, como transmissor e receptor, alguns exemplos de transceptor são o telefone celular (telemóvel), osradares nos aeroportos, os equipamentos de comunicações em veículos oficiais, e de empresas particulares.
Além da radiodifusão, existem outras modalidades na utilização de equipamentos emissores de radiofrequência que influenciam nas radiocomunicações.
• Radiotelegrafia, bastante utilizada até meados da década de 1970. Após o advento da digitalização, a transcepção via código morse caiu em desuso comercialmente e militarmente, embora ainda existam utilizadores da radiotelegrafia.
• Radiotelefonia ainda utilizada, porém em outros modos, por exemplo, os telefones celulares são modos de radiotelefonia.
• Radioemissora não é necessariamente radiodifusão, ou radiocomunicação. Uma radioemissora pode emitir sinais de rádio para os mais diversos fins, desde militares até industriais.
• Radiocomunicação é a modalidade mais utilizada.
• Radiogoniometria é uma modalidade de radiolocalização. Um radiogoniômetro localiza uma emissão de radiofrequência de qualquer modalidade.
• Radiolocalização é uma forma de radiogoniometria. Um radiofarol, por exemplo, sendo um radioemissor, emite sinais que são recebidos por um radiogoniômetro, que tendo um sistema monodirecional de recepção, faz a triangulação da emissora, localizando-a com precisão.
• Radioterapia por Diatermia chamado por alguns do meio médico de Ondas Curtas. Este sistema, embora não pertença ao assunto radiocomunicação, tem sua relevância, pois, é um dos maiores interferentes (Poluidor) nas radiocomunicações. Trata-se de um equipamento transmissor de radiofrequência de alta potência utilizado em medicina e não em comunicação. Também não se deve confundir com Radioterapia por Radiação Ionizante), esta é realizada no comprimento de onda dos raios-x.
• Sua relevância à radiocomunicação se dá pelo fato de serem (juntamente aos equipamentos de diatermia) grandes poluidores doespectro eletromagnético.
É um meio de comunicação que ocupa lugar de destaque. Apesar de ser um hobby, este tem vital importância para as pesquisas e desenvolvimento em diversas modalidades desta ciência.
As estações de radiocomunicação mantidas por radioamadores, se prestam para comunicados e conversas informais além dos concursos e competições nacionais e internacionais os chamados contestes. Além do passatempo, os radioamadores prestam serviços para testes de condições de propagação ionosférica, direta, e por reflexão, (inclusive lunar) nas mais diversas frequências do espectro.
Em casos extremos, as estações de radiocomunicações de radioamadores, em função de sua portabilidade, agilidade, gama de utilização, potência, e sistemas de antenas de fácil montagem e alcance, auxiliam as autoridades de Defesa Civil do mundo inteiro nas situações de risco e calamidades públicas.
Radiojornalismo
no Brasil:
fragmentos de
história
GISELA SWETLANA
ORTRIWANO
“A arte da
improvisação aconteceu
muito, até o rádio
começar a entender
que, para usar todo
seu potencial,
precisava se organizar;
só então, o
rádio disparou em
termos de produção,
de qualidade de
programação e,
principalmente, de
informação”
(Walter Sampaio).
GISELA SWETLANA
ORTRIWANO
é jornalista,
professora
de Radiojornalismo
na
ECA-USP e autora de
A Informação no
Rádio
(Summus).
gsortriw@usp.br
80
Ojornalismo esteve
presente no rádio desde
as primeiras
experiências de exploração
da radiodifusão. As
emissoras, de maneira
geral, são
inauguradas transmitindo
algum evento ou, ao
menos, informando sobre sua
própria existência.
Primeiro meio de comunicação eletrônico,
operando na
velocidade do som, o rádio já nasceu
glocal, termo
cunhado recentemente em função das
tecnologias hoje
disponíveis: tanto contava os fatos do
mundo como os da
casa do vizinho.
Fragmentos de uma
longa história que ainda não foi
bem contada compõem
o texto que procura mostrar um
pouco do trajeto do
radiojornalismo brasileiro. Seu ambiente
tradicional é o
rádio AM (amplitude modulada);
na FM (freqüência
modulada), sua presença está mais
ligada à obrigatoriedade
legal, e só a partir dos anos 90
o potencial
jornalístico é reconhecido. A opção foi destacar
alguns momentos
importantes do processo de evolução
do jornalismo
radiofônico, deixando de lado muitos
fatos, dados e
personagens. Ou seja: muitas outras
histórias
possíveis.
“O Rádio, no
Brasil, surgiu fazendo vibrar as agulhas
que arranhavam
pedrinhas de galena, informando. Isso
ocorreu exatamente
no dia 6 de abril de 1919, no Recife,
quando foi fundada
a Rádio Clube de Pernambuco” (1).
Na inauguração
oficial da radiodifusão brasileira, a 7
de setembro de
1922, como parte das comemorações do
Centenário da
Independência, o jornalismo cumpriu seu
papel. O discurso
de abertura da Exposição Internacional
do Rio de Janeiro,
feito pelo presidente da República
1 Walter Sampaio,
Jornalismo
Audiovisual –
Teoria e Prática
do Jornalismo no
Rádio, na TV
e no Cinema,
Petrópolis, Vozes,
1971. Na p. 19, em
nota
de rodapé, Sampaio
esclarece
o significado de
pedrinhas
de galena: “Como se
sabe, os
aparelhos rudimentares
de rádio
funcionavam com
cristais
de galena, sulfeto
de chumbo”.
80 anos de rádio
68 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
Simplesmente, saiu
do ar. Não estava clinicamente
morto, porém, já
que ressurgiu em
1923, ainda que em
condições muito precárias,
quando o Governo
montou, na Praia
Vermelha, uma
pequena estação que transmitia
‘programas
literários, musicais e informativos’.
Essas transmissões
de fraca
intensidade
conquistaram um ouvinte fiel
e ilustre. Um antropólogo
brasileiro, Edgard
Roquette-Pinto, foi
um dos primeiros ouvintes
assíduos de rádio,
no Brasil” (2).
RÁDIO NO BRASIL: DE
FATO E DE
DIREITO (3)
Edgard
Roquette-Pinto já experimentava
o jornalismo
radiofônico mesmo antes
de inaugurar a
Rádio Sociedade do Rio
de Janeiro, a 20 de
abril de 1923, data que
marca a instalação
efetiva e definitiva da
radiodifusão no
Brasil (as transmissões regulares
começaram a 1o de
maio).
“Tendo acompanhado
as irradiações da
Westinghouse
Eletric no Morro do Corcovado,
durante a Exposição
do Centenário
da Independência,
Roquette-Pinto incorporou-
se àqueles que se
encantaram com o
novo meio de
difusão. Do encanto passou
à prática, montando
em 1922, com o cientista
Henrique Morize, um
pequeno transmissor
experimental, com o
qual pôs-se a
irradiar, pela sua
voz, notícias do dia e
música erudita
destacada de sua coleção de
discos” (4).
A partir dessa
data, o rádio participou
de todos os
movimentos da vida brasileira.
Ajudou a derrubar a
República Velha, participou
da Revolução de 32,
fez extensos
noticiosos sobre a
Segunda Guerra Mundial.
Desempenhou
importante papel no Golpe
Militar de 64,
participou ativamente da
redemocratização
durante a Nova República
e, pouco depois,
fez ecoar país afora o
processo de
impeachment de um presidente
da República. Os
políticos sempre souberam
reconhecer sua
importância nas cam-
Epitácio Pessoa,
foi transmitido pelos 80
receptores
especialmente importados
para a ocasião (a
Westinghouse havia instalado
uma emissora, cujo
transmissor,
de 500 watts,
estava localizado no Alto
do Corcovado).
O jornal A Noite,
de 8 de setembro de
1922, noticiava,
sucintamente, o acontecimento
sob o título “Um
Sucesso de Radiotelephonia
e Telephone
Auto-falante” (sic):
“Uma nota
sensacional do dia de hontem
foi o serviço de
rádio-telephone auto-falante,
grande atrativo da
Exposição. O discurso
do Sr. Presidente
da República, inaugurando
o certamen foi,
assim, ouvido no
recinto da
Exposição, em Nictheroy,
Petropolis e São
Paulo, graças à instalação
de uma possante transmissora
no Corcovado
e de aparelhos de
transmissão e recepção,
nos logares acima”.
Encerrando a nota,
o jornal carioca completava:
“Desse serviço se
encarregaram a Rio de
Janeiro and São
Paulo Telephone Company,
a Westinghouse International Co. e a
Western Electric
Company. À noite, no
recinto da
Exposição, em frente ao posto
de Telephone
Público, por meio do
telephone
auto-falante, a multidão teve uma
sensação inédita. A
ópera Guarany, de
Carlos Gomes, que
estava sendo cantada
no Theatro
Municipal, foi alli, distinctamente
ouvida bem como os
applausos aos
artistas. Egual
cousa succedeu nas cidades
acima”.
Terminadas as
comemorações do Centenário
da Independência,
que impressionaram
o público de acordo
com os textos
dos cronistas da
época, as transmissões radiofônicas
foram
interrompidas.
“Não existia um
sistema de transmissão
regular e, mais
importante ainda, de captação
regular das ondas.
Por falta de aparelhos
receptores e de um
projeto capaz de
torná-los
acessíveis à população o rádio
deixou de funcionar
e de existir, no Brasil.
2 Cláudio Mello e
Souza, Impressões
do Brasil – a
Imprensa
Brasileira através
dos Tempos
– Rádio – Jornal –
TV, São Paulo,
Grupo Machline,
s/d.
[1986], p. 163.
3 Alguns aspectos
da história do
jornalismo no rádio
brasileiro
já haviam sido por
nós abordados
anteriormente. Cf.:
Gisela
Swetlana Ortriwano,
Os
(Des)caminhos do
Radiojornalismo,
São Paulo, ECA-USP,
1990 (tese de
doutoramento).
4 Mario Ferraz
Sampaio, História
do Rádio e da
Televisão no
Brasil e no Mundo,
Rio de Janeiro,
Achiamé, 1984, p.
112.
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 69
panhas eleitorais
e, na corrida presidencial
de 2002, quando o
povo depositou suas esperanças
em um novo perfil
administrativo,
não foi diferente.
Não há candidato que
não se interesse em
participar de programas
em emissoras
radiofônicas em todas
as cidades por onde
passam as comitivas
eleitorais. Essa
importância se estende a
atividades de todos
os campos de atuação,
sejam conquistas
esportivas ou campanhas
de todo tipo.
A Roquette-Pinto se
deve a criação e
apresentação do
primeiro jornal de rádio
brasileiro, já no
início das atividades da
Rádio Sociedade.
“O Jornal da Manhã
não era um simples
noticioso, nem um
modesto relato dos
acontecimentos. Era
o fato comentado, esmiuçado
e interpretado com
a autoridade
do sábio. Jornal da
Manhã, da Rádio Sociedade
do Rio de Janeiro,
foi iniciativa
jamais igualada.
Por meio dele, o comentarista
apreciava os
acontecimentos nos
noticiários dos
jornais, lendo-lhes as manchetes
e oferecendo um
panorama
inigualável de
concisão, de realidade e de
objetividade, como
somente ele poderia
fazê-lo…” (5).
Roquette-Pinto é,
de fato, o primeiro
locutor (e
comentarista) do rádio brasileiro.
“Com sua voz
marcante e bem colocada,
fazia, pela manhã,
a abertura das transmissões.
Nessa abertura, lia
os jornais que já
havia assinalado
com seu lápis vermelho
(hábito antigo),
comentando as principais
notícias do dia,
inaugurando, assim, o jornal
falado” (6).
Saint-Clair Lopes
vai além em sua admiração:
“Com tal gabarito
foi elaborado, que jamais
houve outro que a
ele igualasse em
profundidade,
alcance e qualidade. Nele o
Mestre distribuía
fartamente informações,
como devem ser
consideradas em seu sentido.
Não era um relato,
puro e simples dos
acontecimentos; era
a notícia comentada,
esmiuçada,
interpretada no seu conteúdo e
nos seus reflexos
no sistema social do Brasil
e do mundo” (7).
“Que meio para
transformar o homem,
em poucos minutos,
se o empregarem com
alma e coração”,
afirmava Roquette-Pinto
cujas melhores
esperanças foram depositadas
no rádio. “Assim
ele fazia o Jornal da
Manhã, o primeiro
jornal falado do rádio
brasileiro. E
improvisava sobre a notícia
lida nos jornais
matutinos, acrescentando
novas informações
sobre o país de origem,
as personagens e os
antecedentes do fato”
(8). Os elogios ao
pioneirismo de Roquette-
Pinto vêm sempre
acompanhados pela valorização
da qualidade do
trabalho que realizava.
“É bom ressaltar
que de certa forma
foi Roquette-Pinto
o introdutor no Brasil
do jornalismo de
pesquisa dentro do
rádio” (9).
As emissões
iniciais não eram regulares
uma vez que as
primeiras irradiações da
própria emissora
não apresentavam programas
regulares.
“Só em 1925 e 26 é
que a programação da
Rádio Sociedade do
Rio de Janeiro se firmou,
começando pela
manhã com o Jornal
da Manhã, a cargo
do Presidente da entidade,
Dr. Roquette-Pinto.
Seguiam-se mais
três noticiosos: o
do meio-dia, o da tarde e
o da noite. Os
demais horários eram tomados
com números
musicais e matéria instrutiva…”
(10).
Além do Jornal da
Manhã, havia outros
programas
jornalísticos no rádio brasileiro
dos primeiros
tempos que mereciam,
literalmente, o
título de jornais falados: ler
no rádio as
notícias dos jornais impressos.
Sem qualquer tipo
de elaboração, as notícias
eram lidas
diretamente do jornal, dando
origem a todo um
anedotário próprio: o
locutor, distraído,
lê para o ouvinte a notícia
que termina com um
infalível “… continua
na página x”, ou
então “… como se
pode ver na foto ao
lado”, etc. Tentando
evitar os riscos
que esse procedimento representava
e solucionar o
problema, “passou-
se a utilizar o
recurso de recortar as
5 Saint-Clair
Lopes, Comunicação
– Radiodifusão
Hoje, Rio
de Janeiro,
Temário, 1970,
pp. 41-2.
6 Ana Maria de
Souza Barbosa,
O Pássaro dos Rios
nos
Afluentes do Saber
– Roquette-
Pinto e a
Construção da Universalidade,
São Paulo, PUC,
1996, 2 vs., p. 381
(tese de
doutoramento).
7 “Radiodifusão no
Mundo e no
Brasil”, in
IM/Abert, n. 24,
maio 1969, p. 19.
8 “50 Anos de
Ilusões, entre o
Bom e o Ruim”, in O
Estado de
S. Paulo,
10/6/1973.
9 Azeni Passos,
“Rádio, o Meio
mais Eficaz da
Comunicação
de Massa, Completa
57 Anos
de Vida”, in Diário
Popular,
25/10/1979.
10 Mario Ferraz
Sampaio, op.
cit., p. 144.
70 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
notícias dos
jornais e ordená-las de forma
mais coerente e
lógica, facilitando a leitura.
De forma
pejorativa, este procedimento
ficou conhecido
como gillette-press ou tesoura-
press” (11). Apesar
de subverter a
função do rádio,
era comum nos seus primeiros
tempos e continua
presente em
muitas de nossas
emissoras, com roupagem
nova:
gillette-press virtual, resultado
de copy e paste
obtidos em sites da Internet.
“O noticiário, além
de muito reduzido, vinha
com algum atraso,
porque era todo
colhido nas colunas
dos jornais…” (12).
Não existiam ainda
repórteres nas rádios,
apenas locutores,
abastecidos pela
recortagem dos
jornais.
Segundo Humberto
Sodré Pinto, os jornais
falados foram
lançados no Recife em
1926: “Isto não
implica dizer que, até então,
as notícias e
informações de quaisquer
naturezas
estivessem ausentes de nossos
microfones. […]
Eram, porém, divulgados
esparsamente e sem
nenhuma sistematização”
(13).
Em 1932, durante a
Revolução Constitucionalista,
temos o surgimento
do radiojornalismo
em São Paulo, mais
em termos
de editoriais,
muitas vezes com fortes
conotações de
parcialidade. Experiências
de diversos
formatos jornalísticos estiveram
presentes nas
emissoras paulistas desde
o início, mas era a
primeira vez que o
rádio era utilizado
no Brasil como instrumento
de mobilização
popular. César Ladeira,
que ficou conhecido
como o “Locutor
da Revolução”,
conclamava o povo pela
Rádio Record a
pegar em armas por uma
Carta
Constitucional. Na verdade, hoje se
sabe que vários
locutores se revezavam na
apresentação,
procurando manter um padrão
que confundia o
ouvinte e deixava a
impressão de que
Ladeira estava permanentemente
em ação. “César
Ladeira e seus
companheiros de
microfone Nicolau Tuma,
Renato Macedo e
Licínio Neves imortalizaram-
se em memoráveis
‘irradiações’ que
avançavam pelas
madrugadas, transformando
a Rádio Record de
São Paulo em ‘A
Voz da Revolução’,
inscrevendo-a definitivamente
na história da
radiofonia de São
Paulo e do Brasil”
(14).
“César Ladeira, em
particular, adquiriu
enorme prestígio
[…]. Diante do microfone
da Record, ele
costumava dirigir-se aos
ouvintes de forma
direta, numa conversa
sem cerimônia,
carregada de emoção e
apelo patriótico.
Nas vozes desses locutores,
começaram então a
ser ouvidas as crônicas
escritas por
Antonio Alcântara Machado,
Genolino Amado,
Orígenes Lessa
e, mesmo, Mário de
Andrade, que, sob o
pseudônimo de Luís
Pinho, fazia questão
de ressaltar o
caráter democrático e popular
do movimento
revolucionário paulista.
Um pouco mais
tarde, Rubem Braga escreveria
também crônicas
para a Rádio
Record” (15).
A Rádio Record de
São Paulo foi pioneira
em vários sentidos.
Primeira líder de
audiência,
introduziu logo no início dos
anos 30 a
programação política, levando os
políticos até seus estúdios,
para as “palestras
instrutivas”, como
as denominava Paulo
Machado de
Carvalho, proprietário da
emissora, que assim
relembra sua origem:
“[…] No distante 30
de novembro de 31,
dávamos início a
uma série de palestras
culturais. O
autor-apresentador era nada
mais nada menos que
Monteiro Lobato”
(16). A Record foi
um marco norteador
para diversas
mudanças que seriam
introduzidas nas
emissoras no processo de
evolução das
empresas radiofônicas.
Em 1932, a Record
organizou a cadeia
de emissoras
paulistas para a divulgação
da Revolução
Constitucionalista. Logo
depois, introduziu
outra inovação: a contratação
de cast exclusivo,
no que seria
imitada por outras
emissoras.
“A Record ia
capengando até que estourou
a Revolução de 32.
E aí surgiu – para sorte
da PRB 9 – o
inesquecível César Ladeira
[…] que era forçado
a falar mais de 12 horas
por dia. Como
fazer, se isso constituiria um
esforço demasiado?
Naquele tempo, não
havia os recursos
de hoje. Gravar como?
Em 1932 não se
gravava em fita. Até que
Januário de
Oliveira, cantor que mais tarde
se revelaria um
showman extraordinário,
aventou uma idéia
maluca. Experimenta-
11 Jimmy Garcia
Camargo, La
Radio por Dentro y
por Fuera,
Quito, Ciespal,
1980, p. 26.
12 Trecho da
exposição de Renato
Murce no Primeiro
Congresso
Nacional de
Comunicação,
realizado no Rio de
Janeiro no
período de 10 a 16
de setembro
de 1971. Cf.: Mario
Ferraz
Sampaio, op. cit.,
pp. 172-6.
13 “Subsídios para
a História do
Rádio em
Pernambuco”, in Comunicações
& Problemas, n.
2,
1965.
14 Reynaldo C.
Tavares, Histórias
que o Rádio não
Contou, São
Paulo, Negócio
Editora, 1997,
p. 179.
15 David José Lessa
Mattos, O Espetáculo
da Cultura Paulista
–
Teatro e TV em São
Paulo:
1940-1950, São
Paulo,
Códex, 2002, pp.
149-50.
16 Fernando Reis,
“O Rádio Risonho
e Franco”, in
Propaganda,
n. 235,
fevereiro/1976, pp.
50-1.
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 71
ram e deu certo.
Ele, o tenor Arnaldo
Pescuma e o então
quase menino Renato
Macedo conseguiram
imitar César Ladeira
com perfeição
absoluta e, assim, ‘toma
Ladeira dia e
noite’. Parece-me que até o
Raul Duarte – não
tenho certeza – entrava
na brincadeira…”
(17).
O jeitinho
brasileiro, como se vê, faz
parte da história
do rádio. Realmente, César
Ladeira é
considerado um dos maiores locutores
que o Brasil já
conheceu. “Seu boletim,
das duas às quatro
horas da manhã,
diariamente,
terminava com um apelo revolucionário
a Getúlio Vargas:
Que renuncie
o ditador” (18).
Paulo Machado de
Carvalho conta como
se deu o
envolvimento na Revolução
Constitucionalista:
“Em 23 de maio de
32, a Record foi invadida
por um grupo de
estudantes. […] Invadiram
e lançaram
manifesto pelo microfone.
Depois,
deixaram-nos documentos escritos
que guardo até hoje
em que declaravam
que ‘para evitar possíveis
represálias
por parte das
autoridades, declaramos que
nesta data
invadimos a Rádio Record e através
de seus microfones
fizemos uma proclamação
ao povo, em favor
da liberdade
no Brasil, pela
Constituinte, pela Constituição’”
(19).
Logo depois, viria
o histórico 9 de julho
e a Record passaria
a ter participação destacada
em todo o episódio
da Revolução de
32. Carvalho afirma
que antes dessa época
já havia iniciado
uma programação
jornalística
regular: “Em 23 de fevereiro
de 1932 a Record
lançava seu primeiro
jornal falado, em
combinação com os Diários
Associados. Quem o
inaugurou foi
Assis
Chauteaubriand […] que estava eufórico
no dia da
inauguração e tornou-se
um entusiasta do
radiojornalismo” (20).
A Rádio Nacional do
Rio de Janeiro,
lenda do rádio
brasileiro, foi inaugurada a
12 de setembro de
1936. “A Rádio Nacional
foi fundada em
1936, mas viveu em
crise até 1939. Só
não deixou de funcionar
porque três de seus
fundadores – Celso Guimarães,
Oduvaldo Cozzi e
Ismênia dos
Santos – traduziam
peças de rádio-teatro,
eram atores,
locutores e até trabalhadores
braçais, quando
preciso” (21). Em março
de 1940, Vargas
encampou a Estrada de
Ferro São Paulo-Rio
Grande e a empresa A
Noite, do mesmo
grupo empresarial, que
possuía, além do
jornal, várias revistas (Carioca,
Vamos Ler, etc.) e
a Rádio Nacional.
A partir daí, “com
o dinheiro do poder
público – a
emissora passou a ser uma das
‘empresas
incorporadas ao patrimônio da
União’ – a Nacional
tornou-se a maior e
melhor emissora do
Brasil” (22).
Pioneira no Brasil
na exploração radiofônica
organizada
empresarialmente, a Nacional,
entre muitos outros
programas de
destaque, passaria
a transmitir o maior mito
do radiojornalismo
brasileiro: o Repórter
Esso.
Em 1935, era criada
a Hora do Brasil,
programa de uma hora
de duração que ia ao
ar de segunda-feira
a sábado, com noticiário
oficial,
distribuído pelo DIP (Departamento
de Imprensa e
Propaganda), a partir
de 1937. Mesmo após
a queda de Getúlio
Vargas em 1945, o
programa sobreviveu e
existe até hoje, de
segunda a sexta-feira,
com o nome de A Voz
do Brasil. A partir
dos anos 90 sua
obrigatoriedade tem sido
contestada por
várias emissoras e algumas
têm conseguido, por
medidas judiciais, não
transmiti-lo ou, ao
menos, não no horário
das 19h às 20h
(23).
Não devemos
esquecer que o jornalismo
esportivo já
existia desde o começo
da década de 30
irradiando partidas de
futebol, corridas
automobilísticas, boxe
e outros esportes.
Nicolau Tuma é considerado
o pioneiro entre os
locutores esportivos:
narrou a primeira
partida de
futebol que o rádio
transmitiu, a 19 de
julho de 1931,
através da Rádio Educadora
Paulista. O
“Speaker Metralhadora”,
como Tuma ficou
conhecido na época
por transmitir
falando muito rapidamente,
também foi uma das
atrações
importantes na
Rádio Record em seus
primeiros anos. Em
1938 Gagliano Neto
narrava,
diretamente da França, os Jogos
da Copa do Mundo
(24).
17 Mauro Pires, “O
Rádio do meu
Tempo”, in
Folhetim, Folha de
S. Paulo,
24/9/1978.
18 “Meio Século de
Radiodifusão”,
in Suplemento do
Centenário,
O Estado de S.
Paulo,
3/5/1975.
19 Fernando Reis,
op. cit.
20 Idem, ibidem.
21 Sérgio fonseca,
Vera Magyar,
“As Novas Dimensões
do Rádio”,
in Propaganda, n.
235,
fevereiro/1976, p.
46.
22 Idem, ibidem.
23 Sobre o assunto,
existem vários
artigos em jornais e
revistas. Um
resumo do processo
pode ser
encontrado no site
da Rádio
Eldorado de São
Paulo que lidera
a campanha: http://
www.radioeldoradoam.com.
br/html/vozbrasil.asp
(acessado
em 16/11/2002).
24 Sobre essa
primeira cobertura
de um campeonato
mundial de
futebol diretamente
da Europa,
detalhes em: Gisela
Swetlana
Ortriwano, “França
1938, III
Copa do Mundo: o
Rádio Brasileiro
Estava Lá”, in
Revista
Comunicações &
Artes, São
Paulo, ECA-USP, n.
34, 2o
quadrimestre 1998,
pp. 5-16.
O texto também pode
ser encontrado
em:
http://bocc.ubi.
pt/pag/ortriwano-giselacopa1938.
html
72 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
“Geralmente, as
emissoras eram ecléticas.
Faziam de tudo um
pouco, mas algumas se
especializaram,
como a Panamericana [atual
Jovem Pan], que
começou a transmitir
futebol e outros
esportes. Houve uma época
em que eles
inclusive transmitiam corrida
de pulga, qualquer
coisa [risos]… todos
os esportes eram
cobertos de qualquer
maneira […] mas
depois, as transmissões
ficaram muito mais
enfocadas no futebol”
(25).
Caminhando a passos
lentos, o radiojornalismo
foi se
desenvolvendo no Brasil.
Se já estava
presente desde as primeiras
transmissões, só
começa a funcionar,
de fato, ganhando
espaços e importância,
com o advento da Segunda
Guerra Mundial.
Mas, desde suas
primeiras transmissões,
agregava prestígio
às emissoras que
nele investiam.
SEGUNDA GUERRA: A
ARMA
ESTRATÉGICA
Durante a Primeira
Guerra Mundial o
rádio engatinhava
como processo de transmissão
e, mesmo assim, foi
submetido a
severo controle,
inibindo, quase paralisando
seu
desenvolvimento. Na época, foi
basicamente
utilizado para fins de comunicações
militares.
O rádio foi uma
arma estratégica da Segunda
Guerra. As
orientações ideológicas
e as notícias do
front precisavam ser
divulgadas com a
maior rapidez possível.
Os jornais
impressos, assim como os cinejornais,
não dispunham da
agilidade e alcance
que começaram a ser
requeridos pela
nova realidade e o
rádio passou a ser encarado
como um meio
essencialmente informativo.
“A Segunda Guerra
Mundial faz
do rádio seu
instrumento. As notícias sucedem-
se a cada minuto,
multiplicam-se os
sistemas
informativos, a audiência exige
cada vez mais e
mais notícias dos diferentes
fronts” (26).
O aperfeiçoamento
dos equipamentos e
o desenvolvimento
de sistemas de transmissão
de maior alcance
são conseqüências
que ressaltam o
aspecto jornalístico do
rádio. Nesse
contexto surgem no Brasil os
primeiros programas
que, em sua evolução,
serão os pilares de
sustentação que
darão origem ao
radiojornalismo praticado
até nossos dias: o
Repórter Esso e o Grande
Jornal Falado Tupi.
“Em 1941, por
necessidade imperiosa
de nos colocarmos a
par da II Guerra Mundial,
surgiu o ‘Repórter
Esso’, exatamente
às 12h55m do dia 28
de agosto, na Rádio
Nacional do Rio de
Janeiro, precedido do
prefixo que se
tornou célebre, composto de
fanfarras e
clarins, de autoria do maestro
Carioca” (27).
Chegava respaldado pelo
sucesso já
alcançado em Nova York, Buenos
Aires, Santiago,
Lima e Havana.
Naquele dia 28 de
agosto de 1941, Celso
Guimarães dava a
hora certa e, “ao invés
de sair do ar,
continua a falar: ‘Alô Repórter
Esso!’ Em seguida a
um prefixo de
fanfarras e clarins
que seria sua marca registrada
durante 15 anos na
Nacional, ia ao
ar a primeira edição
do ‘Repórter Esso’, na
voz do locutor
Romeu Fernandes: ‘Alô, alô,
aqui fala o
repórter Esso, criação radiofônica
da Esso Brasileira
de Petróleo e seus
revendedores…’”
(28).
A McCann Erickson
veio para o Brasil
em 1935 e Armando
de Moraes Sarmento
foi o primeiro
brasileiro a dirigir uma agência
de publicidade
americana. Em 1941,
Emil Farhat, na
época já reconhecido como
jornalista, foi
para a McCann, da qual acabou
por tornar-se
presidente. É dele o relato:
“Aconteceu uma
coincidência curiosa:
essa agência, na
ocasião, estava às voltas
com o plano de
lançamento de um programa
noticioso, que
viria a chamar-se Repórter
Esso, e foi aí
então que o noviço de
propaganda
ofereceu, entre outras sugestões
de slogans e textos
de anúncios, um
que se tornaria a bandeira
daquele noticioso:
o primeiro a dar as
últimas” (29). E
Farhat, falando de
si próprio, complementa:
“Mais tarde, ainda
durante a guerra, aquele
mesmo redator da
agência, talvez influenciado
por seus antigos
conhecimentos jurídicos,
criou outro slogan:
‘Repórter Esso,
25 Mario Fanucchi,
entrevista em
25/5/1998.
26 Jimmy Garcia
Camargo, op.
cit., p. 19.
27 Walter Sampaio, op. cit., p.
20.
28 Sérgio Fonseca,
Vera Magyar,
op. cit., p. 48.
29 Ricardo Ramos,
Do Reclame à
Comunicação –
Pequena História
da Propaganda no
Brasil,
4a ed., São Paulo,
Atual, 1987,
p. 59.
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 73
testemunha ocular
da história’” (30).
O Repórter Esso
trouxe um novo estilo
para a informação:
“Com um noticiário sucinto,
vibrante, de
cinco minutos
exatos de duração. […] Isso
foi o bastante para
clarear a mentalidade
radiodifusora para
o velho ângulo da divulgação.
Transmitido em
horários rigorosamente
respeitados,
anunciado pela vinheta
musical que se
tornou inconfundível, adquiriu
estatura e
autenticidade para ser conhecido
e admirado no
Brasil inteiro” (31).
A voz grave e
modulada de Heron Domingues,
locutor exclusivo
do Esso durante
dezoito anos,
tornou-se popular em todo
o Brasil. Aos
poucos, várias emissoras brasileiras
também passaram a
produzir e transmitir
o Repórter Esso,
que foi extinto no
dia 31 de dezembro
de 1968 (32). “O ‘Repórter
Esso’ constituiu
uma revolução e uma
semente benfazeja,
que logo frutificou no
rádio brasileiro”
(33).
Surgiu com a preocupação
de defender
as posições dos
Aliados na Guerra. No
começo, era
totalmente produzido pela
McCann Erickson,
agência de publicidade
que detinha a conta
da Esso – e não pela
Rádio Nacional –,
unicamente com notícias
fornecidas pela UP
– United Press (anos
depois, associada a
outra agência, passa a
chamar-se UPI – United Press International),
seguindo as normas
rígidas e funcionais dos
noticiários
radiofônicos norte-americanos.
Além do Brasil,
programas semelhantes
foram introduzidos
por empresas norteamericanas
em diversos países
latino-americanos,
dentro da chamada
“política da boa
vizinhança”. “O
sucesso do ‘Repórter Esso’
se deveu a vários
fatores: constante renovação,
seleção cuidadosa
das notícias, locução
exemplar,
aprimoramento constante acompanhando
a evolução do
radiojornalismo no
mundo” (34).
No início, o
Repórter Esso “ficou restrito
à Rádio Nacional do
Rio de Janeiro e à
Rádio Record de São
Paulo. Em julho de
1942 foi implantado
nas Rádios Inconfidência
(Belo Horizonte),
Farroupilha (Porto
Alegre) e Clube
Pernambuco (Recife)” (35).
E utilizava o
locutor do horário, não tinha
apresentador
exclusivo. “Só mais tarde a
agência
publicitária encarregada do programa
resolveu fixar-se
em vozes próprias, do
que resultaria a
seleção de Rui Figueira, no
Rio Grande do Sul;
Casimiro Pinto Netto
em São Paulo; e,
finalmente, Heron
Domingues na
Nacional, a partir de 1944”
(36). Eram quatro
edições diárias: pontualmente
às 8h, 12h55, 19h55
e 22h55, além
das inúmeras e
freqüentes edições extras.
Para que todo esse
sucesso fosse alcançado
e a lenda se
estabelecesse, foram impostas
condições, seguidas
rigorosamente
pelas emissoras que
apresentavam o programa
(em algumas
cidades, foram mudadas
com o passar do
tempo).
“Uma hora antes e
meia hora depois do
Repórter Esso
nenhuma emissora que o
transmitia poderia
divulgar qualquer noticiário.
Esta era apenas uma
das severas normas
adotadas pela
empresa e por sua agência
de publicidade no
relacionamento com
as rádios Jornal do
Comércio (Recife), Tupi
(São Paulo),
Nacional (Rio de Janeiro),
Inconfidência (Belo
Horizonte) e
Farroupilha (Porto
Alegre), integrantes da
rede do Repórter
Esso” (37).
“Não há dúvida
sobre o fato de que o
‘Repórter Esso’ foi
o programa radiojornalístico
que conseguiu obter
os maiores índices
de credibilidade
até hoje no Brasil. A
moderna história do
jornalismo de rádio
está associada de
forma indissolúvel ao programa
que deu, também,
alguns dos maiores
profissionais do
jornalismo brasileiro”
(38). A partir daí,
o radiojornalismo começa
a desenvolver sua
técnica específica e a
fazer parte do
dia-a-dia do brasileiro.
“O pacote
cultural-ideológico dos Estados
Unidos incluía
várias edições diárias de O
Repórter Esso, uma
síntese noticiosa de
cinco minutos
rigidamente cronometrados,
a primeira de
caráter global, que transformou
o radiojornalismo
brasileiro. Com o
noticioso, foi
implantado o lide; a objetividade;
a exatidão; o texto
sucinto, direto,
vibrante; a
pontualidade; a noção do tempo
30 Idem, ibidem.
31 Saint-Clair
Lopes, op. cit., pp.
66-77.
32 Cf.: “E atenção:
Acabou o
Repórter Esso”, in
Veja, 8/1/
1969, p. 57.
33 Walter Sampaio,
op. cit., p.
22.
34 Mario Ferraz
Sampaio, op.
cit., p. 127.
35 “Alô, Alô,
Repórter Esso, Alô”,
in Jornal da Aesp,
n. 70, novembro
1987, p. 25.
36 Idem, ibidem.
37 “O Esso Conta a
Guerra e
Ensina o País a
Ouvir Noticiários”,
in Cadernos de
Jornalismo,
Sindicato dos
Jornalistas
Profissionais de
Porto Alegre,
n. 1, 2a ed., s/d,
p. 20.
38 Mauro De Felice,
Jornalismo de
Rádio, Brasília,
Thesaurus,
1981, p. 59.
74 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
exato de cada
notícia; aparentando imparcialidade
e contrapondo-se
aos longos jornais
falados da época.
Porém, o formato
inovador do
noticiário não influiu somente
na área
profissional mas, também, nas disputas
políticas,
ideológicas e culturais da
época” (39).
Durante os 27 anos
em que esteve no ar,
o Repórter Esso deu
em primeira mão as
principais notícias
do Brasil e do mundo,
sempre fazendo jus
a seus slogans: “Testemunha
ocular da história”
e “O primeiro a
dar as últimas”.
Mário Lago nunca se
esqueceu do Repórter
Esso:
“Todos os tipos de
programação eram ouvidos,
acompanhados com o
fanatismo de
sempre, mas
naqueles dias os jornais falados
vinham na cabeça,
dominavam o Ibope.
E dos noticiários,
quem viveu aqueles dias
me dará razão, o
Repórter Esso deixava todos
os outros a perder
de vista. Quando
entrava no ar a tal
musiquinha meio marcial,
meio passo doble,
que era sua característica,
principalmente se
fosse para anunciar
edição extraordinária,
o Brasil inteiro
parava, pois talvez
tivesse chegado o momento
que todos
esperavam. Nós mesmos,
no estúdio, já
estávamos em assanhamento
total e
incontrolável, atropelando as cenas
e desatentos ao
trabalho, quando víamos o
Heron Domingues aparecer
na técnica, sinal
de que a novela ia
ser interrompida para
transmissão de um
telegrama quentinho, e
corríamos ao seu
encontro, esperançosos
de sabermos a
novidade antes dos ouvintes”
(40).
Lago afirma que,
mesmo quando outra
emissora dava uma
notícia, “se o Esso não
confirmasse era
como se não tivesse havido
essa notícia”. E,
apesar da evolução
dos meios de
comunicação, conclui: “Eu
sou como o caipira
de Monteiro Lobato.
Acocoro-me sobre os
dedões dos pés, continuo
picando meu fuminho
caboclo, cuspindo
para o lado e me
rindo na alegria das
gengivas puras:
‘Tem jeito não, seus moços.
Ainda não apareceu
nada pra se comparar
às importância que
tinha o Repórter
Esso’” (41).
A vivência na
apresentação do Repórter
Esso proporcionou
“um conhecimento
detalhado dos
recursos técnicos indispensáveis
para o
desenvolvimento de um programa
jornalístico
radiofônico. Assim, em
1948, Heron
Domingues consegue implantar
na mesma Rádio
Nacional a redação
pioneira de
radiojornalismo, que recebeu o
nome pomposo de Seção
de Jornais Falados
e Reportagens,
descrita como ‘cem
metros de redação
de notícias no 20o andar
do edifício de A
Noite’” (42). Em texto
inédito esboçado em
novembro de 1949 e
intitulado “Técnica
e Execução do Radiojornalismo”,
Domingos
relacionava, “além
dos ‘objetivos e
importância do radiojornalismo’,
22 itens
fundamentais para a produção
e execução corretas
de um jornal
falado” (43).
“A Seção de Jornais
Falados e Reportagens
fundada por Heron
Domingues na
Rádio Nacional
organizou, pela primeira
vez, um sistema de
equipe (um chefe, quatro
redatores e um
colaborador do noticiário
parlamentar),
rotina e hierarquia peculiares
a uma redação de
jornalismo radiofônico.
No mesmo texto
inédito, ele registra
que ‘em 1950, a
Rádio Nacional, através
do seu setor
radiojornalístico, acompanhou
os grandes órgãos
da imprensa, em pé
de igualdade, na
cobertura do período pré
e pós-eleitoral.
Foi quando definitivamente
se consolidou o
conceito de reportagem
radiofônica” (44).
Em 1953 foi criada
a Rede Nacional de
Notícias que
permitia a retransmissão, pelas
ondas curtas, dos
jornais falados da
Nacional por
dezenas de emissoras no interior
do Brasil.
No dia 3 de abril
de 1942, a Rádio Tupi
de São Paulo começa
sua tradição jornalística,
colocando no ar, às
22h, a primeira
edição de outro
mito: o Grande Jornal
Falado Tupi. Criado
por Coripheu de Azevedo
Marques e Armando
Bertoni, com
uma hora de duração
diária, pode ser considerado
o primeiro “jornal
de integração
39 Luciano
Klöckner, “O Repórter
Esso e a
Globalização: a Produção
de Sentido no
Primeiro
Noticiário
Radiofônico Mundial”,
in XXIV Congresso
Brasileiro
da Comunicação,
Intercom,
Núcleo de Pesquisa
Mídia Sonora,
Campo Grande, MS,
setembro/
2001.
40 Mário Lago,
Bagaço de Beira
Estrada, São Paulo,
Civilização
Brasileira, 1977,
pp. 107-8.
41 Idem, ibidem, p.
108.
42 Sonia Virgínia
Moreira, O Rádio
no Brasil, Rio de
Janeiro,
Rio Fundo Editora,
1991, p.
27.
43 Idem, ibidem, p.
27.
44 Idem, ibidem, p.
28.
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 75
nacional”, sendo
ouvido em todo o
“interiorzão” do
país. O Grande Jornal Falado
Tupi possuía,
segundo Mario
Fanucchi, que
trabalhou no programa, duas
características
principais:
“Em primeiro lugar,
havia aquela informação
de interesse
popular, para localização
de pessoas,
localização de parentes e recados
urgentes para
locais de difícil acesso.
A outra
característica era a programação
voltada para a
valorização do município,
da pequena célula,
da importância dos
meios para que os
municípios se desenvolvessem
bastante e que o
país todo ganhasse
com esse tipo de
coisa” (45).
Dirigido pelo
jornalista Coripheu de
Azevedo Marques,
contava
“com as vozes dos
locutores Ribeiro Filho,
Alfredo Nagib, Mota
Neto, Auriphebo
Simões e do próprio
Corifeu (sic) que, a partir
das 9 horas da
noite, fazia a chamada das
principais
manchetes a serem irradiadas,
alertando os
operadores das emissoras que
entravam em cadeia,
para a transmissão
daquele noticioso.
– Atenção, senhores ouvintes,
faltam (números)
minutos para ‘O
Grande Jornal
Falado Tupi’ onde os destaques
serão (lia 3 ou 4
manchetes)” (46).
O Repórter Esso e o
Grande Jornal
Falado Tupi foram
os primeiros, no Brasil,
a mostrar
preocupação quanto a uma linguagem
específica para o
rádio, procurando
elaborar a notícia
de forma a atender as
características do
meio radiofônico e não
do jornalismo
impresso. “O ‘Repórter Esso’
abrindo fronteiras,
o ‘Grande Jornal Falado
Tupi’ buscando
todas as nossas fronteiras,
levando
informações, reportagens e comentários
até então
inacessíveis aos brasileiros
de todos os
rincões, começavam a
definir o embrião
do radiojornalismo nacional…”
(47).
Muitos foram os
programas importantes
na história do
nosso radiojornalismo.
No período da manhã
é preciso ressaltar o
Matutino Tupi, também
criado por
Coripheu de Azevedo
Marques, que foi ao
ar, pela primeira
vez, a 3 de abril de 1946.
Foram 10.287
edições, a última a 31 de
janeiro de 1977.
“O Matutino chegou
a ter mais de 4 milhões
de ouvintes fixos
no interior do País,
e saiu do ar por
‘interesses comerciais favoráveis
à emissora’,
segundo o diretor artístico
Caion Gandia. O
Matutino, com a
morte de Coripheu,
perdeu a qualidade e
‘passou a viver
apenas da tradição’, permitindo
ser derrotado pela
concorrência de
outras emissoras”
(48).
Foram 31 anos
desbravando as manhãs
para a informação,
com grande audiência
no interior do
país, destacando a notícia de
interesse popular,
os recados urgentes para
locais de difícil
acesso e a valorização do
município, da
proximidade com o ouvinte.
Algumas emissoras
começam a especializar-
se. A Rádio
Panamericana, de São
Paulo, a partir de
1947, transforma-se na
“Emissora dos
Esportes”, conseguindo liderança
de audiência e
introduzindo muitas
inovações nas
transmissões esportivas,
que contribuem para
que a linguagem
radiofônica evolua
rapidamente, ao mesmo
tempo em que dão
origem a soluções
técnicas
extremamente criativas. É também
a fase em que o
radiojornalismo começa a
surgir como
atividade mais estruturada,
com o lançamento de
alguns jornais que
marcaram
definitivamente o gênero.
O RADIOJORNALISMO
PÓS-TELEVISÃO
A forte
concorrência da televisão começa
a ser sentida pelo
rádio a partir dos
anos 50, iniciando
um longo processo de
busca por caminhos
que lhe permitam sobreviver.
O rádio enfrentou a
nova realidade
da segunda metade
do século passado
buscando
alternativas. A televisão, inaugurada
no Brasil em 18 de
setembro de 1950,
definitivamente,
ocupou o primeiro plano
entre os meios de
comunicação, levando
45 José Coelho
Sobrinho (org.),
Flagrante de uma Época,
São
Paulo, ECA-USP,
s/d.,
(mimeo.).
46 Reynaldo C.
Tavares, op. cit.,
p. 153.
47 Walter Sampaio,
op. cit., p.
22.
48 Moacyr Castro,
“Sai do Ar o
Matutino Tupi; sem
Anunciar o
Próprio Fim”, in O
Estado de
S. Paulo, 6/2/1977.
76 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
consigo as verbas
publicitárias, os profissionais
e a audiência. À
noite ela passa a ser
a grande estrela. O
rádio procura outros
espaços e descobre
no período matutino o
seu horário nobre.
Das produções caras,
com muitos
contratados, o rádio chega a se
tornar quase um
vitrolão que apenas reproduz
a música gravada em
discos, deixando
de produzir
programas adequados às suas
características
como meio de comunicação.
Terminada a fase de
ouro, o rádio encontra
na eletrônica seu
maior aliado. Uma
série de inovações
tecnológicas são especialmente
favoráveis ao
renascimento do
rádio e à
transmissão jornalística. Entre elas,
o gravador
magnético, o transistor, a freqüência
modulada e as
unidades móveis de
transmissão.
O gravador
magnético começa a modificar
o rádio logo após o
término da guerra,
tornando-se
equipamento comum a partir
dos anos 50. Passou
a ser possível fazer
montagens sonoras
editando cuidadosamente
os trechos
escolhidos, além de reproduzir
imediatamente a
gravação. “As
reportagens tiveram
com este sistema seu
melhor aliado,
contribuindo para que, pouco
a pouco, fosse
menor a quantidade de
programas ao vivo,
dando à programação
um caráter
distinto, com maior qualidade e
pureza” (49).
O uso do gravador
magnético de som
no rádio brasileiro
surgiu no final dos anos
40 e foi se
tornando habitual a partir da
década de 50. “Os
primeiros gravadores
geralmente usados
no Brasil eram da linha
amadorística, ainda
muito pesados, pouco
portáteis e de
manejo não muito prático. Só
quando os
gravadores de fita foram transistorizados
é que se produziram
aparelhos
realmente portáteis
e em condições de atenderem
aos serviços de
reportagens externas”
(50).
Mas é bom salientar
que, se, por um
lado, o gravador magnético
deu ao rádio
maior agilidade,
mais versatilidade, barateou
custos pois
programas – ou trechos –
poderiam ser
repetidos e melhorou a qualidade
das gravações
externas, por outro,
permitiu também
maior controle sobre o
conteúdo das
mensagens: passou a ser viável
fragmentar as
entrevistas, depoimentos,
etc. e remontar os
trechos selecionados,
procedimento que se
tornou rotineiro.
Se antes era
conveniente que se empregasse
a síntese na
emissão, na elaboração da
mensagem por parte
de seu autor, com o
surgimento do
gravador magnético tornouse
possível obter essa
síntese pretendida
cortando os trechos
indesejados.
O transistor foi a
inovação tecnológica
que mais
revolucionou o rádio. Apresentado
ao mundo em 1947,
começa a se popularizar
alguns anos depois,
simplificando o
processo e
melhorando a qualidade das transmissões
radiofônicas. O
aparelho receptor
não precisa mais
estar ligado às tomadas de
eletricidade, seu
tamanho fica cada vez mais
reduzido e seu
preço mais baixo. E o ato de
ouvir torna-se
individualizado. Ao mesmo
tempo, o rádio
ganha em mobilidade, tanto
de emissão como de
recepção. Os automóveis
passam a dispor de
receptores; os gravadores
magnéticos ficam
mais compactos
e livres dos fios e
tomadas, facilitando seu
manuseio e
integrando-se a todas as coberturas
jornalísticas em
que o rádio esteja presente.
Hoje extremamente
portáteis, com
seus microfones
embutidos, permitem captar
o palco da ação sem
necessidade de nenhuma
infra-estrutura de
apoio.
A exploração da
freqüência modulada
(FM) a partir do
início da década de 50 – no
Brasil, quase vinte
anos depois – permite
ao rádio
desenvolver um dos elementos
essenciais em sua
busca pela sobrevivência
diante da
televisão: o aspecto local. Com
qualidade sonora
superior ao da amplitude
modulada (AM)
explorada até então (basicamente,
através das ondas
médias – OM –
e das ondas curtas
– OC; posteriormente,
no Brasil, também
em ondas tropicais –
OT), a FM tem custo
de transmissão inferior,
permitindo aumento
considerável do
número de emissoras
em operação. Paralelamente,
torna-se possível o
emprego de
unidades móveis de
transmissão, valorizando
sobremaneira a
agilidade do rádio e suas
características,
como imediatismo, simultaneidade
e mobilidade.
No início, ainda
nos anos 60, as FMs
fornecem “música ambiente”
para assinan-
49 Jimmy Garcia
Camargo, op.
cit., p. 23.
50 Mario Ferraz
Sampaio, op. cit.,
p. 157.
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 77
tes interessados em
ter um background
apropriado.
Posteriormente, a partir dos
anos 70, as
transmissões utilizariam canais
abertos, surgindo
um número elevado de
rádios, todas
voltadas para a programação
exclusivamente
musical. A primeira foi a
Rádio Difusora de
São Paulo (FM), fato às
vezes contestado
uma vez que a Eldorado
de São Paulo,
quando foi fundada, em 1958,
transmitia em ondas
médias e, “por questão
de prestígio usava
também a FM para
transmitir só
música, fora da faixa comercial”
(51). Em várias
partes do Brasil existiram
transmissões em FM
ainda não devidamente
divulgadas uma vez
que a história
do rádio brasileiro
continua mal contada,
resumindo-se ao Rio
de Janeiro e a uma ou
outra capital, sem
levar em conta detalhes
do restante do
país.
Amparado pela
eletrônica, o rádio via
nascer um novo
caminho: a especialização
das emissoras e a
segmentação de públicos.
Essas tendências já
se manifestavam nos
EUA desde o início
da década de 60. No
Brasil, é nos anos
80 que ela se impõe, principalmente
nos grandes centros
urbanos.
“Uma vez que as
empresas radiofônicas
começaram a encarar
o fato de que a televisão
lhes havia usurpado
o lugar como
distribuidoras de
entretenimento geral para
as massas,
começaram a experimentar novos
formatos e
descobriram que, em conjunto,
poderiam atrair
fragmentos de seu
público anterior,
formulando fortes chamamentos
a frações
determinadas da população”
(52).
Surge a programação
baseada no tripé
música-esportes-notícias.
Paralelamente,
diferentes
experiências de uso do rádio
como meio
democrático também ganharam
espaços: livres,
piratas, comunitárias.
Com a segmentação
do mercado e as
emissoras
especializando-se em diferentes
tipos de
programação, surge a figura do
disc-jóquei e o
desenvolvimento de programações
de interesse
limitado a determinadas
faixas de público.
Em algumas
emissoras a especialização
foi tão radical
que os programas de
curta ou média duração
(meia hora, uma
hora) foram praticamente
abolidos, havendo
quase que um só
programa durante as
24 horas do dia, dirigido
rigorosamente a um
só segmento do
público. No Brasil,
a especialização chegou
a partir de meados
dos anos 70, ganhando
força alguns anos
depois. Música,
jornalismo,
prestação de serviços, esportes
foram as linhas
básicas adotadas, sempre
de olho no
público-alvo pretendido,
visando a melhor
exploração das potencialidades
comerciais do meio.
Gêneros e formatos
diferenciados foram
sendo
experimentados. Entre as várias especializações,
no jornalismo
surgiram as
rádios all news,
que apresentam apenas notícias,
e as talk &
news, em que o espectro de
formatos jornalísticos
é mais amplo englobando
notícias,
entrevistas, comentários etc.
Na prática, os
modelos teóricos não se apresentam
em suas formas
puras, mesclandose
em diferentes
composições: news, talk,
all news, all talk
e outras mais que possam
resultar da criatividade
do jeitinho brasileiro.
Essas propostas
ganham espaço a partir
dos anos 90 apesar
de terem surgido no rádio
norte-americano,
geralmente em emissoras
FM, no início dos
anos 60.
A primeira emissora
all news de que se
tem conhecimento é
a XTRA, de Tijuana,
no México (mas que
transmitia da Califórnia
do Sul),
pertencente a Gordon McLendon.
Em 1961, McLendon,
que também foi um
dos pioneiros no
uso do rock 24 horas por
dia como
especialização, transformou a
XTRA em all news.
Três anos mais tarde,
outra emissora de
sua propriedade, a WNUS,
de Chicago, adotava
a mesma programação
especializada em
notícias. Em abril de 1965,
a WINS, de Nova
York, muda, repentinamente,
de rádio
especializada em rock para
all news. Após
despedir todos os seus discjóqueis
“contratou 27
jornalistas especializados
em rádio e passou a
transmitir notícias
24 horas por dia”
(53).
Presença constante
no rádio desde sempre,
é nessa fase que o
jornalismo é regulamentado,
tornando-se
obrigatório na programação.
O Código Brasileiro
de Telecomunicações,
instituído pela Lei
n. 4.117,
de 27 de agosto de
1962, determina, em seu
51 “A Rádio dos
Ricos”, in Veja,
9/12/1970, pp.84-5.
52 William H. Honan, “El Nuevo
Sonido de la
Radio”, in Lluís
Bassets (ed.), De
las Ondas
Rojas a las Radios Libres,
Barcelona,
Gustavo Gili, 1981,
pp. 97-113.
53 Idem, ibidem,
pp. 102-4.
78 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
Capítulo V, art.
38, letra h: “As emissoras de
radiodifusão,
inclusive televisão, deverão
cumprir sua finalidade,
destinando um mínimo
de 5% (cinco por
cento) de seu tempo
para a transmissão
de serviço noticioso”.
O rádio foi mudando
seu perfil para
enfrentar os novos
tempos e o jornalismo
não poderia ficar
de fora. Uma inovação de
programação
noticiosa foi lançada pela
Rádio Bandeirantes,
em 1955, mostrandose
revolucionária e
influenciando a programação
das outras
emissoras. “A Bandeirantes
de São Paulo fez-se
pioneira no sistema
intensivo de
noticiário […] em que as
notícias com um
minuto de duração entravam
a cada quinze
minutos e, nas horas
cheias, em boletins
de três minutos” (54).
O crítico Walter
Silva, o “Pica-pau”,
esmiúça, em
depoimento, a proposta da
Bandeirantes.
“Em 1955, […]
Oswaldo Moles e um astrólogo
chamado Professor
Bascaram [sic]
resolveram mudar
todo o sistema de irradiação
de textos daquela
emissora, imediatamente
apoiados por Edson
Leite. […] Constava
do sistema […]
eliminar os textos lidos
por locutores
comerciais de intervalo
em intervalo.
Segundo o plano, eles seriam
interpretados por radioatores
e irradiados
apenas de meia em
meia hora […]. Foi um
sucesso tão grande
que, meses depois,
muitos faziam fila
para anunciar dentro do
sistema adotado
pela emissora. Novos programas
surgiram. […]
Henrique Lobo cuidava
da direção
artística e foi implantando
novos programas
que, mais tarde, junto com
a programação
esportiva, dominavam a
preferência
nacional, derrubando o prestígio
de mais de vinte
anos da ‘Rádio Nacional’”
(55).
Trabalhando desde
1953 na emissora,
Walter Sampaio
participou do processo e
conta um pouco dos
bastidores dessa história:
“A Rádio
Bandeirantes de São Paulo […]
vai ser realmente a
mais popular emissora
paulista quando
implanta um sistema absolutamente
revolucionário no
rádio brasileiro.
Esse sistema, o
RB-55, é um mistério
na sua origem,
porque foi implantado por
um cidadão que se
intitulava, na época,
psicólogo de
massas. O nome dele era
Carlos Pedregal,
não se sabe bem se ele era
argentino, se era
espanhol ou se era de um
outro país
sul-americano, ou ibero-americano.
Ele se apresentava
como Professor
Bascaran. Não sei
que fim levou essa figura,
mas era um homem
extremamente criativo,
e conseguiu
convencer a direção da
Bandeirantes a
fazer uma revolução na sua
programação” (56).
A tradição
jornalística mantém-se na
Bandeirantes e ao
longo de sua história
destacou-se por
alguns pioneirismos. Em
1950 foi a primeira
emissora brasileira a
transmitir
ininterruptamente, 24 horas, façanha
cujo slogan
enfatizava: “Abrimos a
Bandeirantes e
jogamos a chave fora”; em
1955, no já citado
Sistema RB-55, os intervalos
comerciais
concentravam-se em três
minutos, numa época
em que as emissoras
levavam ao ar
intermináveis reclames. A
formação da Cadeia
Verde-Amarela Norte-
Sul do Brasil, para
a transmissão da Copa
do Mundo da Suécia
em 1958, integrada
por 400 emissoras
em todo o Brasil, foi
outro marco do
rádio e, segundo a empresa,
na ocasião
“registraram-se os maiores índices
de audiência em São
Paulo que uma
emissora jamais
alcançou”: mais de 90%.
Em 1962, é a vez da
primeira experiência
de geração
simultânea de programa – o
jornalístico
Primeira Hora –, entre São
Paulo e Rio de
Janeiro. O Sistema BandSat
AM, pioneira rede
de rádio via satélite do
Brasil, iniciou
suas operações em 1989 e,
dez anos depois,
foi a primeira emissora
brasileira a
internacionalizar sua programação
pela Internet,
através da Rádio Alfa
FM de Paris (57).
O jornalismo da
Bandeirantes AM detém
alguns recordes
históricos. O Pulo do
Gato, com seus sete
fôlegos, está miando e
se renovando desde
2 de abril de 1973,
sempre sob a
apresentação de José Paulo
de Andrade: é
campeão mundial em permanência
no ar, no mesmo
horário, mesmo
prefixo e mesmo
apresentador. É também
54 Walter Sampaio,
op. cit., p.
22.
55 Cláudio Mello e
Souza, op. cit.,
pp. 230-1.
56 Walter Sampaio, entrevista
em
12/5/1998.
57 Dados
disponíveis no site http:
//www.radiobandeirantes.
com.br/historia/index.asp
(acessado em
16/11/2002).
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 79
pioneiro em
inaugurar o horário das 6h para
o jornalismo no
rádio brasileiro.
Outro orgulho:
fazer jornalismo de opinião,
não apenas de
informação. O Jornal
Bandeirantes Gente,
no ar desde 1978, é
exemplo dessa
tendência, assim como seu
antecessor, O
Trabuco, criação e apresentação
de Vicente
Leporace. O Jornal Primeira
Hora é o mais
antigo da emissora,
estando no ar desde
1962. Apesar dos muitos
pioneirismos,
recordes e experimentações,
a Bandeirantes é
umas das emissoras
menos estudadas do
rádio brasileiro.
No final da década
de 50, outra experiência
dentro da estrutura
que estava sendo
sedimentada no
radiojornalismo marca o
início de
modificações profundas nos jornais
falados quando a
Rádio Continental
do Rio de Janeiro
torna-se a primeira emissora
brasileira
especializada em reportagens
externas, uma
criação de Carlos Palut.
“Operadores e
rádio-repórteres (sic) saíam
juntos para as
tarefas, e a primeira providência
era a instalação de
microfones nos
locais onde se
realizariam as solenidades.
Os telefones tinham
de ser matados (expressão
que significa bloquear
os aparelhos
de telefone, cujas
linhas são utilizadas
nas transmissões
diretas). Como naquele
tempo os aparelhos
de gravação eram muito
pesados, precisavam
ser levados por
vários
funcionários. Muito trabalho tinha
de ser gravado.
Carlos Palut levantava os
assuntos, realizava
as gravações e posteriormente
eles eram levados
ao ar, no Jornal
de Reportagem”
(58).
No Brasil, o
serviço de utilidade pública
– ou prestação de
serviços – foi introduzido
pelo jornalista
Reinaldo Jardim na
Rádio Jornal do
Brasil AM, do Rio de Janeiro,
em 1959, com o
objetivo de restabelecer
o diálogo com os
ouvintes. Atualmente,
este é um tipo de
programa adotado por
emissoras em todo o
país constituindo importante
fonte de informação
e participação
para os ouvintes.
Para Mario Fanucchi,
“no seu esforço de
sobrevivência, o rádio
encontrou no
jornalismo um apoio maior
para desenvolver um
trabalho de prestação
de serviços, de
informações sobre todos os
setores” (59).
Inicialmente, o serviço de
utilidade pública
surgiu nas rádios divulgando
notas de achados
& perdidos. Aos
poucos, foi se
ampliando, chegando a criar
setores exclusivos
dentro das emissoras.
A Rádio Jornal do
Brasil também foi a
primeira emissora a
adotar o sistema all
news entre nós. A
novidade foi introduzida
em maio de 1980,
procurando criar um novo
hábito na
audiência: ouvir notícias sucessivas
a maior parte do
dia. “Seis anos depois,
a cúpula
administrativa e redacional da
Rádio chegou à
conclusão de que esse não
era o sistema ideal
para a manutenção de
uma emissora como a
Jornal do Brasil AM,
com um público
cativo, que durante mais
de vinte anos se
acostumara à programação
solidamente
implantada: música de qualidade
e informação
correta” (60).
Nos seis anos que
durou a experiência,
a chefia do
departamento de jornalismo foi
mudada seis vezes.
Acima de tudo, parece
ter faltado à JB o
investimento indispensável,
tanto em
equipamentos quanto em mãode-
obra especializada,
orientado por uma
estratégia
empresarial e filosofia de trabalho
definidas.
Em São Paulo, a Rádio
Panamericana,
a Jovem Pan AM, tem
no jornalismo a espinha
dorsal de sua
programação desde o
final da década de
60, mas nunca se posicionou
como uma emissora
all news. O
objetivo era dar
ênfase à programação mais
falada, que buscava
reencontrar o diálogo
com o público,
surgindo programas como
o Show da Manhã, em
que o locutor Kalil
Filho montou uma
verdadeira rede de troca
de informações, que
iam desde receitas
culinárias a fontes
de pesquisa para trabalhos
escolares. Nessa
época, a Jovem Pan
instalou um serviço
particular de meteorologia,
além de dar
destaque às condições
do trânsito, das
estradas, ofertas de emprego,
reclamações do
público, etc. A partir de
1967 cria uma
equipe de jornalismo bem
estruturada que
muda a imagem da emissora,
de esportiva para
jornalística e de prestação
de serviços, sem
que o esporte deixe
de ter espaço na
programação. A reportagem
de rua foi
intensificada e a informação
58 Mauro De Felice,
citado por
Sonia Virgínia
Moreira, op.
cit., p. 30.
59 José Coelho
Sobrinho (org.),
op. cit.
60 Sonia Virgínia
Moreira, “Jornalismo
na Rádio Jornal do
Brasil
AM”, in Gisela
Swetlana
Ortriwano (org.),
Radiojornalismo
no Brasil – Dez
Estudos
Regionais, São
Paulo, Com-
Arte, 1987, pp.
19-43.
80 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
passa a estar
presente não mais em horários
fixos mas no
momento em que o fato acontece,
a qualquer hora do
dia ou da noite. O
Jornal da Manhã foi
líder na integração do
território via rede
de emissoras de vários
estados. E o repita!,
toda vez em que era
dada a hora certa,
criação do locutor Antonio
Alexandre (e muito
usado pelo apresentador
Wilson Fittipaldi,
o “Velho Barão”),
incorporou-se ao
rádio, sendo um dos
jargões mais
conhecidos. Também não
podemos esquecer a especialização
territorial uma vez
que a Pan deixava bem
clara sua
preferência pela área nobre dos
Jardins, região que
concentra uma população
com alto poder
aquisitivo na cidade de
São Paulo, como
público-alvo.
Fora do eixo São
Paulo-Rio, temos a
Rádio Gaúcha, AM,
de Porto Alegre que,
desde o final dos
anos 50, tem no jornalismo
sua característica
principal, com noticiários
e comentários
durante a programação.
Fundada em 8 de
fevereiro de 1927, a
Rádio Gaúcha foi
vendida em 19 de novembro
de 1957 ao grupo que
deu origem
ao que se constitui
hoje uma das maiores
redes de
comunicação no Brasil: a Rede
Brasil Sul – RBS,
que conta com emissoras
em vários estados.
Se na batalha pela
sobrevivência que o
rádio enfrentou a
partir dos anos 50 o
radiojornalismo foi
importante, no Brasil
poucas emissoras
utilizaram como arma a
estratégia da
programação jornalística. Na
grande maioria, o
jornalismo continua sendo
tabu. Exige
investimentos, responsabilidade,
persistência; em
contrapartida,
o retorno vem na
forma de audiência, prestígio
e lucro.
NEWS, ALL NEWS, TALK & NEWS…
É NOTÍCIA NA REDE!
Algumas tendências
se delinearam. Às
vezes meras
reinterpretações do rádio de
sempre; outras,
possibilidades que surgiram
não apenas com a
evolução tecnológica
mas também com o momento
social, com
as expectativas e
ritmos da vida, com a interrelação
entre os meios de
comunicação e
seus diferentes
suportes. E isso afeta o jornalismo
e os jornalistas
que estão no rádio.
Transmitindo por
satélite, a formação
de redes nacionais
de rádio ágeis e com boa
qualidade sonora é
favorecida. Ao contrário
das cadeias
radiofônicas em que a emissora
líder comandava e
todas as demais,
muitas vezes
centenas, apenas retransmitiam
sem nenhuma
participação no conteúdo,
a rede pressupõe a
produção em distintas
camadas: nacional,
regional, local. O
jornalismo é
valorizado se receber a atenção
necessária. O
acesso à tecnologia iguala
as emissoras e seus
produtos: o grande
diferencial será a
qualidade dos profissionais
e sua criatividade
artesanal.
Experiências de
rádio por satélite estão
em andamento,
principalmente nos EUA.
Grandes empresas
automobilísticas, como
GM, Ford,
Volkswagen, Mercedes Benz,
Jaguar, etc., têm
fechado acordos com as
principais empresas
de rádio por satélite –
a XM e a Sirius –
para oferecer o Digital
Satellite Radio
(DSR) nos modelos das marcas.
Por meio de
assinatura, o receptor terá
à disposição grande
número de emissoras
altamente
segmentadas cobrindo todo o
território. A
indústria automobilística também
demonstrou interesse
na produção de
programação, o que
representa um dos
indicativos de que
os investimentos na
exploração da
radiodifusão poderão ter origens
em diferentes
setores da economia.
O rádio digital
permite uma hipersegmentação
com produções
altamente direcionadas
para cada
público-alvo. “As vantagens
serão a melhora na
qualidade sonora,
através de uma
recepção livre de interferência,
além de serviços de
dados adicionais
ao áudio, sem fio e
maior utilização da
banda” (61),
explica Ronald Siqueira Barbosa,
coordenador do
Grupo SET/Abert
(Associação
Brasileira de Rádio e Televisão)
de Rádio Digital.
Por enquanto, persistem
dúvidas e
problemas. Quando o processo
de digitalização
estiver implantado,
o rádio vai deixar
de ser somente som para
ser áudio, imagem e
dados.
“A grande
contribuição que o rádio di-
61 “Este Jovem
Senhor, o Rádio”,
in Portal Imprensa
(http://
www.uol.com.br/imprensa)
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 81
gital vai oferecer
para o jornalismo vai ser
a oportunidade de
transmitir notícias com
a qualidade de um
CD”, segundo o presidente
da Aesp (Associação
Paulista das
Emissoras de Rádio
e Televisão) José Inácio
Genari Pizani. “O
padrão AM vai ser superior
ao FM de hoje”,
explica Paulo Machado
de Carvalho Neto,
presidente da Abert,
“o que vai
transformar as emissoras de jornalismo
tradicionais em
potenciais competidoras
no mercado” (62).
Na Europa, o
projeto Eureka-147,
via Digital Audio
Broadcasting (DAB),
está em operação experimental
desde os anos 80.
Para o jornalista,
a convergência multimídia
impõe-se como um
sistema de trabalho
à medida que o
digital se estabelece,
alterando a própria
formatação da notícia
em rádio.
“Nos modelos já
disponíveis de receptores
de rádio digital,
há um visor em que aparecem
transcritas
informações adicionais que
não estão no áudio
das matérias ou dos
programas que vão
ao ar, assim como fotografias
e mesmo imagens em
movimento.
O jornalista não
vai ser um produtor apenas
de informação
sonora. Vai formatar textos
e imagens. E o
ouvinte poderá ter informação
mais completa”
(63).
Na Internet o rádio
tem suas particularidades.
Na transmissão
comum, se o ouvinte
perde a atenção,
não pode voltar a notícia ou
a música para ouvir
novamente, característica
da instantaneidade,
ou seja, a simultaneidade
na recepção. Na
Web, mesmo nas
transmissões ao
vivo, os sites podem
disponibilizar os
arquivos de áudio para que
os ouvintes possam
escutá-los posteriormente,
on demand. As
rádios virtuais são especialmente
produzidas para a
Internet; mas
emissoras
convencionais a utilizam como
suporte para suas
transmissões normais. A
presença do rádio
na WWW, por enquanto,
é tão diversificada
quanto a própria Internet.
Tudo pode ser
encontrado, de emissoras
altamente
especializadas a meras caixas de
música, para muitos
gostos.
Tendência já
acentuada é a mudança do
jornalismo das
emissoras AM para as FM,
fenômeno presente
em outros países há
quase meio século.
Contingências históricas
motivadas por
interesses econômicos
forçaram a
transmissão somente de música
ambiente em seu
início. O rádio FM tem
qualidade sonora
mais sofisticada e, portanto,
condições de
reproduzir melhor qualquer
som, seja música ou
fala. Em muitos
países, o processo
já se inverteu: a AM
apenas reproduz a
programação produzida
para a FM. E, com a
tecnologia das telecomunicações,
um celular de
tamanho mínimo
permite cumprir
outra característica tão
cara ao rádio: o
imediatismo, ou seja, a simultaneidade
na emissão.
“O rádio FM tem
hoje uma ‘cara’ diferente
do AM por
circunstâncias. O FM nasceu
num lugar que já
tinha uma AM pois ninguém
vai fazer rádio com
as mesmas características.
A alegação era a
seguinte: melhor
som, melhor
estereofonia então ‘vamos
tocar música, rádio
FM é música, é
rádio para música’.
E o AM fica para o
resto. E, assim,
não há concorrência entre
duas emissoras da
mesma empresa. Esse é
um dos motivos,
talvez o principal. Na
minha concepção,
rádio é rádio de qualquer
jeito, pode fazer
qualquer coisa. Por
exemplo, a CBN hoje
está fazendo radiojornalismo
na FM no mesmo tom
que faz
na AM. É possível
fazer rádio sem estar
caracterizado pelo
meio, pela forma de
transmissão” (64).
All news é outra
das facetas muito almejadas
pelo
radiojornalismo. Diversas emissoras
têm programação
jornalística com
pretensão de serem
news, de preferência
all news. Com
perfil jornalístico, algumas
operam em rede,
outras são locais. A informação
está presente
durante todo o dia e a
música, via de
regra, surge como informação
complementar, não
mais como peça de
resistência. Mas
essas emissoras, em sua
maioria, mesmo se
pretendendo news, são
talk, com
programação predominantemente
comandada por
âncoras – antes conhecidos
como apresentadores
– encarregados
de entremear as
notícias com muita torrente
verbal.
62 Idem, ibidem.
63 Idem, ibidem.
64 Mario Fanucchi,
entrevista em
25/5/1998.
82 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
“CBN – a Rádio que
toca notícia. Em
formato all news, a
CBN traz a cobertura
dos principais
fatos do país e do exterior.
Caracterizada por
ser uma emissora plural,
dá espaço para as
diversas vozes da sociedade,
na busca constante
da isenção e
credibilidade.”
Este é o conceito que a CBN
– Central
Brasileira de Notícias divulga,
informando que o
“investimento em produção
de notícias se
transformou em prioridade
para o Sistema
Globo de Rádio […]
nos moldes das
melhores agências de notícias”;
a grade de
programação foi elaborada
para “reforçar o
conceito de rede nacional
da emissora,
ampliar o número de afiliadas
e posicionar o meio
rádio no mercado
publicitário”.
Ainda segundo a empresa,
“a CBN é hoje a
maior rede de emissoras
all news, que
transmite via satélite 24
horas de
jornalismo”. Criada em 1o de outubro
de 1991, procura
estabelecer-se nas
principais cidades.
“Com mais de 200 jornalistas
pelo país, a rádio
que toca notícia
focaliza os
principais assuntos nacionais e
internacionais, com
um estilo de programação
próprio e
exclusivo” (65). Em 2002,
a rede estava
composta por 23 emissoras,
sendo cinco
próprias (São Paulo, Rio de
Janeiro, Recife, Belo
Horizonte e Brasília)
e as demais
afiliadas.
A idéia de colocar
em prática uma programação
jornalística 24
horas por dia partiu
do vice-presidente
do Sistema Globo de
Rádio, José Roberto
Marinho, que, em viagem
aos EUA, ficou
impressionado com o
grande número de
emissoras fundamentadas
na informação,
interessando-se também
pelo movimento das
rádios locais que ocorreu
na Espanha,
principalmente na Catalunha.
No processo de
implantação do projeto,
buscando garantir
presença nos centros
nevrálgicos da vida
nacional, a CBN
viu-se forçada a
transmitir por FM nas praças
em que não possuía
uma AM. O resultado
mostrou-se
promissor. E o jeitinho não
deixou de
colaborar: em São Paulo, o Sistema
Globo de Rádio
amargava uma FM
cujos destinos eram
incertos pois não encontrava
um nicho de
atuação. A Rádio X
(sim, este o nome
fantasia decidido após
um “concurso” com a
participação do público)
passou a
retransmitir a programação
da CBN
(ex-Excelsior), para “ocupar o
canal”, a baixo
custo.
Heródoto Barbeiro,
gerente de Jornalismo/
SP, âncora do
principal jornal da rede e
figura decisiva na
elaboração e implantação
do projeto, defende
a segmentação e a definição
clara do
público-alvo pretendido para
que seja produzido
um jornalismo de qualidade
e credibilidade. A conseqüência,
garante,
será audiência e
retorno publicitário.
Integrante do
Sistema Globo de Rádio, a
rede CBN ocupa um
espaço bem definido
dentro do grupo:
explora o filão jornalístico.
Enquanto isso, as
outras emissoras, denominadas
Globo, são
nitidamente populares.
Trabalhando com
informações locais na
prestação de
serviços (trânsito, enchentes,
acidentes), não
importa que a emissora tenha
um grande alcance
territorial se, como
no caso de muitas
AMs, elas apresentam
problemas de
recepção na cidade em que
estão instaladas.
Programação local transmitida
para outras cidades
deixa de ter sentido.
Com emissoras FM,
de alcance local e
boa qualidade
sonora, é possível atingir o
público-alvo com
muito mais eficiência e
até desdobrar a
transmissão, dependendo do
momento. Se uma
cidade tem problemas
locais, a
programação da rede pode permanecer
inalterada e a
emissora FM investir na
prestação de
serviços enquanto se fizer necessário.
O mesmo acontece
quando há mais
de um evento
esportivo a ser transmitido no
mesmo horário: cada
faixa transmite um
deles e as
informações são trocadas entre
elas. A
Bandeirantes AM de São Paulo adotou
a mesma estratégia
no final dos anos 90,
através de um
acordo operacional com a
Rádio Vip FM
(emissora do litoral paulista),
que passou a
retransmitir a programação de
perfil jornalístico
podendo, eventualmente,
duplicar as
transmissões dependendo do assunto
ou dando destaque
para a cobertura da
temporada de férias
no litoral. No caso, importante
frisar que a
emissora FM da Rede
Bandeirantes, a
Band FM, continua independente,
com programação
exclusiva já
bastante
sedimentada.
O forte da CBN é
cobrir o principal eixo
político-econômico
fazendo a triangulação
65 CBN – a Rádio
que Toca Notícia,
http://radioclick.globo.
com/cbn/insti/historia.asp
(acessada em
3/12/2002).
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 83
Rio de
Janeiro-Brasília-São Paulo, operando
em rede boa parte
do tempo. A cabeça
de rede, do ponto
de vista empresarial, é o
Rio de Janeiro mas
o projeto está estruturado
em São Paulo, praça
que tem os melhores
resultados
comerciais.
Além da produção
própria, a CBN abriu
a possibilidade de
terceirização em toda a
programação, seja
de programas inteiros,
inserção de
programetes ou da participação
de comentaristas,
analistas, etc., que
entram várias vezes
ao dia, sempre patrocinados,
podendo inclusive
interagir com o
âncora que estiver
no ar.
“Levar aos ouvintes
cerca de 1.000 informações
por dia, em forma
de nota, boletim,
reportagem, comentários,
programas especiais,
institucionais,
entre outros, significa
dar ao cidadão o
que ele quer e precisa.
Respeitar o
ouvinte, consultando-o quando
de assuntos
polêmicos, cobrar postura e
ação das
autoridades competentes, são posturas
percebidas diariamente
na CBN e
fazem com que a
comunidade dê o retorno
esperado,
garantindo audiência” (66).
A CBN é reconhecida
no meio como o
embrião de uma
estratégia comercial que
movimenta o setor,
uma vez que “renasceu
comercialmente” ao
jogar notícias 24 horas
no ar, incluindo a
FM. “Os grandes
anunciantes do dial
estão com o jornalismo,
tradicional filão
das AMs. E querem a
qualidade da
transmissão e o público jovem/
consumidor das FMs
já que, na AM, a
audiência registra
queda e os ouvintes estão
envelhecendo.” O
resultado foi a “inspiração
para a
Bandeirantes, Jovem Pan e
Eldorado, que
passaram a transmitir seus
noticiários da AM
nas manhãs da FM. Além
de economizar em
equipe – já que o mesmo
material é usado
pelas duas freqüências –,
aumentaram a
audiência e o faturamento
das FMs” (67).
Jovem Pan SAT é a
rede da Jovem Pan
AM, de São Paulo,
que retransmite uma
parte do Jornal da
Manhã para 95 emissoras
afiliadas, com
noticiário sobre os acontecimentos
do Brasil e do
mundo, além da
participação de
repórteres e entrevistados
da área política,
econômica e social do país.
Em cinco edições
diárias, Hora da Verdade
é um compacto de 10
minutos dividido
em dois blocos de
cinco minutos, abordando
os principais
acontecimentos do momento
e da hora anterior,
é outro produto que
entra em rede (68).
A Rádio 89 FM – “A
Rádio Rock” – de
São Paulo mescla
rock com informações
musicais e de
trânsito no programa Giro
89, alcançando a
liderança entre as FMs,
no horário das 18h
às 20h. Respaldada por
decisões judiciais,
a 89 não transmite A Voz
do Brasil sob a
justificativa de informar e
prestar serviço. O
Giro 89 manteve a linguagem
básica do
público-alvo da emissora
e, devido ao
sucesso, lançou também uma
edição matutina.
Segmentação é outro
conceito mal
aproveitado. De
maneira geral, as emissoras
procuram atingir os
mesmos públicosalvos:
estão todas
segmentando para a
mesma audiência,
sem buscar nichos diferenciados.
São emissoras
produzindo
clones ad infinitum
de programas que acreditam
bem sucedidos, sem
preocupação
com as características
específicas da região
e da emissora.
A tecnologia tem
permitido que o rádio
e, especialmente, o
jornalismo possam desempenhar
suas funções de
forma cada vez
mais aprimorada. Um
exemplo é a telefonia
celular, que fez
com que o rádio ganhasse
ainda mais
agilidade, potencializando
seu caráter
imediatista: é possível
transmitir as
mensagens sem grandes aparatos.
A Rádio Eldorado de
São Paulo tem
dado destaque ao
seu ouvinte-repórter (instituído
em 1993),
incentivando-o a ligar
para a emissora passando
informações, especialmente
pelo celular. A
Bandeirantes
tem sistema
semelhante, utilizando o repórter
da cidade e o
repórter das estradas.
Com isso, conseguem
cobertura bastante
ampla do trânsito e
excelente prestação de
serviços em
momentos dramáticos como
acidentes ou
enchentes. Imobilizado no
trânsito
congestionado, o ouvinte fica motivado
a participar,
sentindo-se importante
como fonte, uma vez
que sua emissora predileta
está lhe dando a
oportunidade de in-
66 Nivaldo
Marangoni, “Programação
Jornalística –
Vinte e
Quatro Horas por
Dia: o
Pioneirismo da CBN
– Central
Brasileira de
Notícias”, in XXII
Congresso
Brasileiro de Ciências
da Comunicação, GT
Rádio, Rio de
Janeiro, RJ,
1999. Em:
http://www.
intercom.org.br/papers/
index6.html
(acessado em 3/
12/2002).
67 Laura Mattos,
“Em Tempo de
Crise na AM,
Marcelo Tas Leva
mais Notícia à FM”,
in Folha
Online, 30/10/2002 (http:/
/www1.uol.com.br/ilustrada/
ult90u28407.shtml).
68 Em: site da
Jovem Pan AM
(http://jovempan.uol.com.br/
j p a m n e w / s o
b r e /
programacao.php).
84 REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003
terferir
diretamente na produção e não apenas
receber a
programação já pronta. Esta
possibilidade tende
a crescer cada vez mais.
Mas os limites são
marcantes: as emissoras
não costumam
permitir que o ouvinte se
expresse sobre
assuntos gerais, ao vivo.
Não temos ainda um
ouvinte-falante
exercendo sua
cidadania no sentido amplo.
Um recurso é
incentivar o ouvinte a deixar
sua manifestação
gravada em uma secretária
eletrônica, para
que seja selecionada e,
eventualmente,
editada antes de ir ao ar.
Ou ainda,
participações por fax ou e-mail
que não apenas
excluem os que não têm
acesso a essas
tecnologias, como permitem
a leitura
“resumida” por parte do locutor,
nem sempre
permitindo a plena emissão do
pensamento. Mas
toda a tecnologia de celulares
de última geração,
de alcance mundial,
não servirá nem
para produtores, nem
para a participação
dos ouvintes, se faltar
energia elétrica e
as baterias não puderem
ser recarregadas.
Procurando sanar esse
problema básico,
recursos muito antigos
estão surgindo como
salvadores da pátria:
a velha e boa
manivela, a energia solar e
por aí afora…
Aos poucos, a
reportagem parece estar
voltando ao
jornalismo radiofônico depois
de quase
desaparecer: os pretensos repórteres
mal conseguiam
emitir boletins, geralmente
patrocinados, de
assuntos que
envolviam a
prestação de serviços. Nos
últimos tempos,
algumas emissoras, como a
Eldorado e a
Bandeirantes, produzem reportagens
“em capítulos” em
que o assunto
é dividido em
partes, levadas ao ar uma por
dia, podendo ser
repetida, em edição integral,
no final de semana.
A reportagem de
longa duração não
mais está presente no
rádio. Esses
aspectos todos estão muito relacionados
com a retomada da
vida democrática:
sob censura, o
jornalismo ao vivo
não apenas perdeu
espaço mas deixou de ter
profissionais que
soubessem exercê-lo.
A sustentação
econômica do jornalismo
no rádio merece
atenção especial.
“Há um consenso
entre a maioria dos jornalistas
de que não se pode
misturar negócios
comerciais das
empresas de comunicação
com a linha
editorial. Jornalistas não
são contatos
comerciais, nem gerenciadores
de publicidade, e
não devem se envolver na
intermediação de
verbas, nem como pessoas
físicas, nem como
jurídicas. Quem
viabiliza a
sustentação econômica de um
programa
jornalístico é o departamento comercial
e não o de
jornalismo. Os veículos
de comunicação não
sobrevivem sem
faturamento
econômico, pois são empresas
que têm como
finalidade última o lucro.
Portanto, o
jornalismo se faz no bojo
de um determinado
business. E um deles é
o rádio comercial.
É neste quadro de competição
que sobrevive o
radio-business no
Brasil. Porque sem
business não há programação,
nem talk show, nem all news. Em
suma, sem negócio
não há jornalismo de
rádio” (69).
A mistura entre
jornalismo e publicidade
tem uma longa
história e existia já nos
primeiros anos do
rádio. Depoimentos de
pioneiros deixam
claro que a preocupação
era não apenas
cobrir a matéria para a qual
estava pautado (ou
“encontrasse pelo caminho”)
mas também angariar
anúncios, ou
seja, o faturamento
do veículo de comunicação
e, principalmente,
a “comissão” que
garantia a própria
sobrevivência uma vez
que “pagar salário”
não era norma no mercado.
José Carlos de
Morais, o celebre repórter
Tico-Tico, conta
como, ainda nos anos
30, se fazia o
recrutamento de jornalistas.
“Freitas Nobre e eu
queríamos arrumar trabalho
na Rádio Educadora,
hoje Gazeta. A
gente queria fazer
a Hora da Ave Maria. O
gerente aceitou, mas
disse que a gente ia
trabalhar de graça…
Como, trabalhar sem
ganhar? ‘Isso é
comum’, diz o homem.
‘Vocês começam na
Hora da Ave Maria,
saem arranjando
anúncio. Quando tiverem
uma boa carteira, a
rádio dá uma comissão
pra vocês…’’’ (70).
Vários outros aspectos
poderiam ser
lembrados, mas por
ora basta. A intenção
foi tão-somente
instigar a curiosidade para
fatos importantes
da história do radiojornalismo
brasileiro e
incentivar pesquisa-
69 Heródoto
Barbeiro, “Business e
Radiojornalismo”,
in Portal Imprensa
(http://www.observatoriodaimprensa.
com.br/artigos/
mat0507b.htm).
70 José Hamilton
Ribeiro, Jornalistas
1937-1997 –
História da
Imprensa de São
Paulo Vista
pelos que Batalham
Laudas (Terminais),
Câmeras e
Microfones,
São Paulo, Imprensa
Oficial do
Estado, 1998, p.
32.
REVISTA USP, São
Paulo, n.56, p. 66-85, dezembro/fevereiro 2002-2003 85
dores para que essa
história seja conhecida
de forma mais
completa, em suas diferentes
facetas regionais.
As possibilidades tecnológicas
do momento permitem
vislumbrar
um rádio moderno,
ágil, simultâneo
aos acontecimentos,
próximo do ouvinte.
E um jornalismo que
acompanhe essas possibilidades,
contanto que
reaprenda a dominar
a linguagem
radiofônica que vai
muito além do
blablablá improvisado. É
uma mistura bem dosada,
equilibrada para
cada situação,
entre fala, música, efeitos
sonoros e…
silêncio.
Interatividade é o
que o rádio, finalmente,
promete; ao
destinatário caberá também
o papel de emissor,
estabelecendo um fluxo
de informação com
duas mãos de direção:
a tecnologia
forçando o diálogo real
entre emissor e
receptor.
“O rádio seria o
mais fabuloso meio de
comunicação
imaginável na vida pública,
constituiria um
fantástico sistema de canalização,
se fosse capaz, não
apenas de emitir,
mas também de
receber. O ouvinte não
deveria apenas
ouvir, mas também falar:
não isolar-se, mas
ficar em comunicação
com o rádio. A
radiodifusão deveria afastar-
se das fontes
oficiais de abastecimento
e transformar os
ouvintes nos grandes
abastecedores”
(Bertolt Brecht).
RADIOJORNALISMO NO
BRASIL:
FRAGMENTOS DE
HISTÓRIA
Em 1937, Getúlio
Vargas anuncia ao
microfone do DIP
(Departamento de
Imprensa e
Propaganda) a criação do
Estado Novo
Já na campanha para
retornar ao governo em 1950, o ex-ditador
discursa diante dos
microfones, sob as vistas de Luiz Carlos
Prestes, líder
comunista que o apoiava na ocasião






.jpg)








.jpg)










.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)




.jpg)













Nenhum comentário:
Postar um comentário